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juillet/décembre 2011 -janvier /juin 2012  - julho /dezembro 2011 -janeiro /junho 2012

Rainhas Piratas e Outras Senhoras do Mar.

Carla Cristina Garcia[1]

Resumo:

Alguns dos piratas mais notórios de todos os tempos foram mulheres. Desde o início da pirataria, as mulheres se destacaram por sua valentia e coragem. Como Dido, a rainha errante fundadora de Cartago, Artemisa, rainha almirante e pirata, a pirata anti-inglesa Gracie O’Malley,  e muitas outras que foram Senhoras dos mares e cujas vidas superaram os limites de seu tempo.

Palavras-chave: piratas, mulheres,coragem.

 

 Zarpando (Introdução)

   “Ser estrangeiro e ao mesmo tempo sentir-se em casa em todos os lugares, e sair, solitário e digno para conquistar o mundo. O autêntico vagabundo, sentado   às  margens dos caminhos e contemplando o horizonte livre que se abre diante dele não é o senhor absoluto das terras, dos mares e dos céus?”

                                                Isabelle Eberhard

 

Em um de seus relatos de viagem, Isabelle Eberhard, reivindica o direito a vagabundear. Para ela, vagabundear, levar a vida percorrendo caminhos era o significado da liberdade:

“Romper um dia resolutamente todas as travas com que a vida moderna e a debilidade de nosso coração, sob o pretexto da liberdade, carregaram nosso gesto, pegar o bastão e as alforjas simbólicas e ir-se. Para quem conhece o valor e também o delicioso sabor da solitária liberdade (pois nunca se é mais livre como quando estamos sozinhos) o ato de ir-se é o mais valente e belo.”(Eberhard,2001:33)

Em seus escritos, Eberhard coloca em tela de juízo as ideias recebidas, esclarece a gênese de sua própria vida de viajante e inscreve-se dentro de uma longa linhagem de aventureiras.

Sua curiosidade pelo mundo e a busca de sua própria verdade passavam pela coragem de desobedecer, de ser aventureira e vagabunda.É preciso não esquecer, entretanto, que na cultura ocidental palavras como aventureiro e vagabundo têm significados absolutamente diferentes quando ditas no feminino.

Falar em aventura é falar de homens movidos pela paixão pelos confins do mundo. A palavra aventureira não evoca nem partidas, nem distanciamento, nem viagens, mas sim ambição, intriga, amor interesseiro. No século XX, quando a aventura adquire o sentido que lhe dá Malraux – ir mais longe – as aventureiras não são as mulheres que partem para conhecer o desconhecido. É preciso acrescentar um qualificativo para distingui-las das cortesãs: as grandes aventureiras. Mas este é um esforço inútil: “Os homens têm as viagens, as mulheres os amantes” (apud Lapierre 2007:4) ironiza o mesmo Malraux. Para os homens, portanto, a conquista das terras, para as mulheres a conquista dos homens.

Quando se trata de ilustrar o espirito de aventura, a história - escrita por homens - retém nomes como os de Marco Polo, Cristóvão Colombo, Magalhães. Na sombra fica Egeria, nascida no século IV no lugar que hoje chamamos de Galícia e que escreveu um importante livro de viagens detalhando seu caminho até a Terra Santa. (López, 2010) Ou Isabel Barreto, navegante espanhola do século XVI, que teve em suas mãos o comando de uma expedição na conquista da América e obteve o título de almirante. (Robles, 1959)

As aventuras tem sido e são domínios tanto dos homens quanto das mulheres desde os tempos mais remotos, mesmo que a imensa maioria delas tenha sido esquecida.

Até a poucas décadas atrás, era muito difícil encontrar testemunhos de mulheres viajantes anteriores ao século XVIII, época das grandes expedições. Mas nos últimos 20 anos, parte da crítica histórica feminista apostou em uma postura radical.  Tendo como pressuposto o fato de que as circunstâncias históricas impossibilitaram o registro das contribuições das mulheres exploradoras, viajantes e aventureiras, passaram a fazer uma verdadeira reconstrução da história dessas mulheres analisando as relações entre o poder e o saber que presidiram esta exclusão, os critérios de autoridade, os entraves sociais e o silenciamento posterior de protagonistas exiladas, que apesar de tudo existiram.

Para tanto, as estudiosas postularam a necessidade de se esclarecer uma série de questões prévias: perfilar um modelo de crítica feminista e introduzir modelos históricos e genealógicos alternativos.A proposta de modelos históricos alternativos buscaria resgatar do esquecimento as contribuições das mulheres em geral como coletividade na teoria e na prática social.

O uso da noção de genealogia deveria contemplar em primeiro lugar a genealogia como método desconstrutor das relações de poder presente no saber e o seguimento de suas redes de exclusão e de construção de conceitos. E em segundo a construção de uma genealogia feminina que recuperasse protótipos literários e mitológicos, galeria de mulheres ilustres tendo como objetivo a construção do imaginário, da simbologia, da memória e da presença feminina e que incluisse, portanto, mulheres reais e fictícias, feministas ou não.

Para Elaine Showalter, desde Wollstonecraft, existiram poucas mulheres que se converteram em ídolos feministas, em símbolos de aspiração que exerceram um poder tanto espiritual quanto psicológico sobre as mulheres:

“Ainda que não apareçam em antologias, conferências, livros dedicados a personagens notáveis e legendários, estas mulheres constituíram uma verdadeira tradição subterrânea e subconsciente na medida em que sucessivas gerações de filhas rebeldes e aventureiras as redescobriam e reinventavam.” (Showalter,2002:14)

Para a autora, as mulheres que se converteram em ídolos feministas são conhecidas por seu valor e pela variedade de matizes com que lutavam para levar uma vida plena, que rompiam todas as regras e seguiam sua própria senda: eram mulheres decididas a experimentar o amor, as vitórias e se empenharam para que suas vidas fossem relevantes.

Ao longo dos séculos as mulheres buscaram na mitologia e na religião ideias sobre o estilo épico de vida feminista, estudando as Amazonas, Diana de Éfeso, Cassandra, Penélope, as vezes buscando a vida de alguma messias feminista. Este desejo frustrou algumas mulheres, mas outras o incluíram em seu projeto de vida.

Em 1917, a antropóloga Ruth Benedict planejou escrever um livro que intitularia “Aventuras de mulher!”. Desejava falar sobre a inspiração tão intensa que recebia da vida de mulheres mais valentes que fizeram de sua vida uma aventura apaixonante.

 “Reivindicar nossos ídolos feministas é um passo necessário em nossa memória coletiva. No século XX as mulheres conseguiram enormes benefícios, mas ainda carecemos de um sentido do passado feminista. Outros grupos celebram suas figuras heroicas, mas as mulheres não tem um dia oficial para comemorar o nascimento ou a morte de nossas grandes heroínas. Tanto se viveram no século XVII, XIX ou XX, todas viveram a frente de seu tempo. (...) necessitamos saber mais sobre os modelos de nossa própria tradição para atuar, e para discutir sobre suas escolhas cuja inquietude e espirito de aventura fazem delas nossas heroínas, nossas irmãs, nossas contemporâneas.” (Showalter,2002:15)

E quando as teorias se desvanecem, as biografias conservam sua força. Durante os últimos anos, por meio de biografias e diários de viagem de mulheres que estão sendo publicados, podemos saber que muitas mulheres lançaram-se a aventura para lugares que ainda não constavam nos mapas.[2]

Durante séculos, mulheres nem tão loucas, nem tão excêntricas, contribuíram com suas viagens ao conhecimento geográfico e participaram em importantes acontecimentos históricos. Viajantes, exploradoras, navegantes, conquistadoras existiram na história da sociedade ocidental desde a antiguidade. Foram muitas as mulheres que assumiram o comando de exércitos e frotas. Rainhas valentes e independentes. Algumas foram heroínas militares e outras foram piratas.

Desde a antiguidade existiram mulheres que viveram do roubo marítimo. Nos anais da pirataria – do mar mediterrâneo ao da China – estão escritos em letras de ouro dezenas de nomes femininos. Mulheres que demonstraram como os mapas de ilhas remotas, os cofres com tesouros, ou roubos em alto mar, os seqüestros e os assassinatos mais cruéis não são patrimônio exclusivo dos homens.

Nos primeiros séculos da nossa era, o Mare Nostrum foi o cenário propício para essa atividade ancestral. Entre as piratas mediterrâneas pioneiras, deixaram sua marca nas águas desse mar duas soberanas de mesmo nome e mesmo reino: Artemisa I e Artemisa II da Cária. Outra rainha, Teuta de Ilíria, pirata de tradição, utilizou todo o conhecimento desta arte para se tornar o terror do Adriático.

Em alto mar: As rainhas piratas do mediterrâneo

“Sobre o imenso passado do Mediterrâneo, o mais belo testemunho é o próprio mar. Isto tem de ser dito e repetido. É preciso vê-lo uma e tantas vezes. É certo que, por si só, ele não explica tudo acerca de um passado complicado, construído pelos homens com mais ou menos lógica, capricho ou insensatez. Mas o mar restitui pacientemente as experiências do passado, devolve-lhes as primícias da vida, coloca-as sob um céu, numa paisagem que podemos ver com nossos próprios olhos, análogos aos de outrora. Um instante de atenção ou de ilusão, e tudo parece reviver.”

                                                                  Fernand Braudel

Na antiguidade, o mediterrâneo e o mar do norte, foram cenários clássicos da atividade pirata. Muitas sociedades viviam da agricultura, do comércio e da pirataria.
Não se pode precisar uma data exata para seu surgimento, mas deve ter aparecido no mesmo momento em que se desenvolveu o comércio marítimo no Mediterrâneo e Egeu, durante o século 13 a.C.

A palavra "pirata" vem do grego "peiratès" e designava o indivíduo que procurava sua fortuna por meio da aventura no mar. Na antiga Grécia, a pirataria era considerada uma arte e leis protegiam os piratas como uma associação. Alguns piratas, por exemplo, entregavam parte do espólio a Hera, deusa dos ventos (Yolen 2009). Os gregos, não estabeleceram distinções entre o nauta e o peiratès.  Para eles, o pirata era alguém que procurava nas águas a prosperidade que lhes faltava em terra firme.  Basta com passar os olhos nos escritos de Homero para comprovar. Aquiles dedicou-se ao roubo marinho em sua mocidade. Pela boca de Ulisses, descreve:

“Eia, porém que eu vos relate igualmente as tribulações de me regresso, lançadas por Zeus, quando eu voltava de Tróia. As brisas que me levaram de Ílio aproximaram-me dos cícones, em Ismaro. Saqueei ali a cidade e matei os homens; trazendo da povoação suas esposas e copiosas riquezas, repartimo-las de modo que nenhum dos meus homens seguisse lesado na igualdade dos quinhões.”(Homero,1993:101-102)

Para os gregos, a pirataria e uma de suas seqüelas terrestres, os seqüestros, funcionavam como um poderoso motor econômico. O ouro obtido dos resgates, venda de escravos e proteção aos comerciantes, gerava um tráfico monetário por todo mediterrâneo que teria sido impossível conseguir de outra maneira.  Os prisioneiros transformados em escravos constituíam a principal força de trabalho e o motor de produção de bens e serviços.

Acontecimentos posteriores – as Guerra Médicas e o império de Alexandre, – afetaram profundamente a pirataria. Os novos reinos, cada vez mais fortes fizeram com que as águas do mediterrâneo entrassem em um período de relativa calmaria.

Os piratas reapareceram quando a ordem helênica entrou em declínio deixando passo a nova potência: Roma que, entre o século III A.C. e o começo da era cristã, não apenas modificou a geografia do poder - que se moveu do Mediterrâneo oriental ao ocidental - mas também as mentalidades.

 Pode-se dizer que os romanos começaram as perseguir os piratas desde o momento em que o primeiro legionário molhou os pés nas cálidas aguas desse mar. A longa campanha que durou muitos séculos contou com episódios dos mais variados. Os romanos encontraram todo tipo de bandidos naquele que chegaria a ser seu Mare Nostrum. O jovem Júlio César teve ocasião de comprovar quando caiu em mãos piratas em 78 a.C.

O barco em que César viajava para a ilha de Rodes foi capturado e os piratas resolveram pedir por ele 20 talentos de ouro. Segundo biógrafos romanos, Júlio César retrucou que poderiam pedir 50 e o resgate foi pago. Uma vez em liberdade, o futuro imperador armou uma frota, perseguiu seus seqüestradores, prendeu-os e os crucificou.   Onze anos depois, seu rival, Pompeu, recebeu plenos poderes do senado romano para acabar com os bandidos do mar. Pediu três anos e realizou a tarefa em quarenta dias. Por uma dessas ironias da vida, seu filho Sexto Pompeu, rompeu a tradição familiar e dedicou-se de corpo e alma a pirataria. Foi o último pirata do Mare Nostrum durante muitos séculos. (Ormerod, 1997).

Em vista do exposto, fica claro que o pirata era visto como uma pessoa empreendedora, e audaz. Mas o que os frios dados, tomados dos grandes escritores gregos e romanos ocultam é que o peiratè do Mare Nostrum podia ser um homem ou uma mulher.

O mediterrâneo não foi um mar exclusivamente masculino. Suas águas banharam as areias de muitas costas onde o roubo naval era praticamente monopólio de mulheres. Ainda hoje são freqüentes nos povoados da costa mediterrânea histórias sobre tesouros ocultos e mulheres piratas.

Uma delas vem da ilha grega de Skopelos, refúgio ideal para os piratas que tinham ali o lugar perfeito para suas abordagens já que os barcos que zarpavam do porto de salônica a caminho do Sul eram obrigados a fazer esta rota. Até hoje este golfo continua sendo um lugar ideal para que os navegantes se protejam dos ventos do norte. Foi neste lugar que Adrina, também conhecida como o terror do norte do Egeu atracou seu barco.

Conta a boa gente do lugar que muitos anos antes da chegada dos turcos, um barco pirata, comandado por uma mulher, atracou em uma ilhota escondida. Adrina, a capitã, enviou seus homens a terra para saquear o povoado mais rico da ilha, enquanto ela esperava no barco. Para sua desgraça, o plano deu errado, pois os skopelitas souberam da incursão, planejaram uma emboscada e mataram todos os bandidos. Quando o único sobrevivente informou a Adrina sobre o desastre, a capitã tirou o tesouro do navio e afundou o barco no golfo. Depois subiu em um promontório e atirou-se ao mar. Desde então, o lugar se chama Adrines, pois a população vitoriosa, desejando perpetuar sua vitória, deu o nome da pirata à linda ilhota onde a galera pirata ancorou.  

 Diz a lenda que o tesouro de Adrina era enorme. Entre o tesouro estava uma porca de ouro que até hoje é motivo de busca tanto pelos habitantes quanto pelos turistas. (Parsons, 2000)

Se a história de Adrina é apenas mais uma entre muitas que fazem parte do escopo de contos populares mediterrâneos, vale lembrar que, uma dessas histórias sobre uma grande mulher pirata se converteu num dos grandes mitos da civilização ocidental pelas mãos de Virgílio na Eneida( Balbín e Palencia,1999).

A pirata a quem me refiro se chamava Elisa e foi a fundadora de Cartago, a Cidade- Estado que enfrentou Roma pelo domínio das terras que circundavam o mediterrâneo. Os cartaginenses, que nunca leram Virgílio, Ovídio ou a qualquer outro poeta “inimigo” a conheciam pelo nome de Tanit[3] e a adoravam como grande deusa mãe que era.

Elisa, filha primogênita de Mutto(ou Belus) , rei da cidade fenícia Tiro. Foi casada com o tio Sychaeus (ou Acerbas). O pai ao morrer deixou o reino para os dois governarem, mas Pigmaleão, seu irmão, quis reinar sozinho e também cobiçava os tesouros do tio. Mata o cunhado e com um golpe de Estado, anuncia seu casamento com Elisa para obter os bens através da irmã a legitima herdeira. Elisa, no entanto - alertada em sonho pelo marido, contam alguns - decide fugir. Começa a arrumar suas coisas e reunir seu grupo dando a entender que iria se mudar para a casa do irmão.  Satisfeito, Pigmaleão envia ajudantes. Mas Elisa os convence também a fugir com ela e os seus. O grupo foge até o porto, se apodera da frota tíria que se preparava para zarpar em uma missão comercial e iniciam sua viagem.

A primeira escala de Elisa foi em Chipre. A princesa destronada esperava que a gente do local a apoiasse, pois como seu nome dava a entender, ela era a deusa encarnada do país, afinal, Elisa e Chipre são sinônimos. (Bell, 1991)Entretanto, forçados a escolher entre Elisa e Pigmaleão, o povo optou pelo segundo e assim, ela teve que zarpar uma segunda vez.

Mas Elisa levou algumas coisas de Chipre. A primeira foi um nome novo. Decidiu que a partir daquioele momento não responderia mais ao nome de Chipre, mas sim ao de Dido. Dido, nome pelo qual Elisa será lembrada significa, em fenício, ‘wanderer’[errante], “feminine warrior or heroine”, “brave maiden”.(Bell,1991)A segunda, muito mais pragmática consistiu em levar algumas mulheres para se casarem com os rapazes do grupo e formarem a nova colônia.

Na costa da África ela compra de um chefe tribal, Jarbas, um pedaço de terra. Dido propõe comprar a terra que coubesse na pele de um touro. A Rainha então cortou o couro do animal em tirinhas estreitas e conseguiu o bastante para cercar toda a colina que ali ficava que depois disso foi chamada de Byrsa, “escondida”. Esse evento é comemorado na matemática: o "isoperimetric problem" que consiste em cercar o máximo de área dentro de limites fixos. É também denominado “Problema de Dido” no moderno Cálculo de variações.[4] 

 Ali funda Kart Hadasht ou ‘nova capital’, mais tarde conhecida como Cartago, em 814 A.C, mais ou menos um século antes das cidades que serão rivais desta: Siracusa e Roma.

A cidade prosperou rapidamente, muitas pessoas vieram se juntar aos primeiros habitantes. Dido reinou por muitos anos, e a próspera Cartago tornou-se uma República. Jarbas, o chefe tribal que lhe vendera a área, começou a ficar enciumado e acabou pedindo a mão de Dido em casamento. Ela não queria se casar. Jarbas chama dez dos mais nobres cartagineses e lhes diz que ou se casa com ela ou irá declarar guerra à cidade. Ao voltarem, não ousam informar a rainha sobre a ameaça e lhe dizem que Jarbas pedira-lhes que enviassem mestres para ensinar aos líbios as artes da civilização. Eles expressaram duvidas quanto a alguém querer ir. Foram censurados por Dido que lhes disse que todo cidadão deveria estar disposto a sacrificar qualquer coisa, até sua vida, pelo bem de sua cidade.  

Antes de Virgílio o mito retratava Dido como mulher de valor, fiel aos seus, corajosa, honrada, modelo de liderança. Alguém que sabe calcular o uso das palavras e das ações visando determinados fins.

Virgílio na Eneida remodela a estória, faz Dido contemporânea de Eneias cujos descendentes irão fundar Roma. Ela então se torna uma heroína da paixão: primeiro por ser fiel ao marido morto, depois por se suicidar ao ser abandonada por Enéias. Na Eneida ela se apaixona por Enéas e se suicida depois dele ter deixado a África atirando-se numa pira de fogo.[5]

Então, de uma heroína grandiosa ela se torna uma mulher chorosa por um amor não correspondido. Ao morrer, amaldiçoa os troianos provendo assim uma origem mítica para as guerras Púnicas. Segundo Ovídio, (apud, Silva, 2008: 79) Dido escreveu uma carta para Enéas no momento em que sobe a pira. Na carta, tenta persuadir Enéas a ficar em Cartago e propõe que ele aceite o tesouro como parte de um dote generoso.

Durante milênios a estória do tesouro de Dido circulou pelo Mediterrâneo e muitas expedições foram feitas - inclusive pelos romanos - para encontrá-lo. 

Na Divina comédia, Dante enxerga a sombra de Dido no segundo círculo do Inferno, ao qual ela foi condenada (devido a sua luxuria devoradora) a ser eternamente crestada em um redemoinho ardente.

Durante o regime fascista sua figura foi demonizada, como figura anti-romana, mas principalmente porque juntava no mínimo três outras qualidades femininas desagradáveis: virtude feminina, origem étnica semítica e civilização africana. Seu nome e sua memória eram temidos. (Doria,2001)

 Adrina e Dido. Estórias e Mitos de aventura e de coragem femininas tão incríveis e surpreendentes quanto a das três rainhas piratas da Antiguidade: Artemisa , Artemisa II e Teuta.

Artemisa, a Rainha Almirante.

“E por certo que também se conta o seguinte episódio: Apareceu aos gregos a imagem de uma mulher que (...) lhes dirigiu a seguintes palavras: Desgraçados !!! até quando vão continuar remando para trás???”

                                                                                          Heródoto

A mulher a quem Heródoto se refere é Artemisa I de Halicarnaso – Espírito de Artemis é o que seu nome quer dizer - rainha e pirata, aliada de Xerxes na famosa batalha de Salamina. Dela, diria o rei persa, era sua melhor capitã.

Heródoto, que escreveu longamente sobre os feitos e façanhas desta rainha, jamais mencionou o nome do príncipe consorte, ainda que provavelmente o soubesse por que o historiador nasceu em Halicarnaso e quando criança conheceu Artemisa por quem sentia uma admiração especial. A única coisa que o cronista dá a entender foi que o consorte morreu cedo, que engendrou um herdeiro em Artemisa e que a viúva deteve o poder durante a menoridade do filho. Mas a razão mais provável para o fato do nome do marido não ter sido conservado pela história é que tanto o poder quanto a riqueza eram transmitidas pelas mulheres da família.

Heródoto a apresenta como uma rainha inteligente, capaz de expressar sua própria opinião mesmo quando ninguém mais estava de acordo. Foi uma navegante habilidosa e valente, que protegeu sua frota durante as guerras entre a Grécia e a Pérsia. No século V A.C. Artemisa reinou na cidade de Halicarnaso[6] (hoje chamada Bodrum) encravada na costa do mar Egeu turco. O pai de Artemisa e seu marido haviam governado a cidade antes dela. Quando enviuvou, se converteu em rainha, já que seu filho era muito jovem para governar.

Em 480 a. C. o império persa estava em seu máximo apogeu. O rei Xerxes vencedor da batalha das Termópilas, apoderou-se da Grécia peninsular e incendiou a cidade de Atenas. Depois, se dirigiu em direção ao sul levando a guerra até o mar.

 Artemisa, aliada da Pérsia, cedeu e comandou cinco barcos para a batalha. Mas Artemisa preveniu Xerxes sobre a superioridade dos barcos gregos e o lembrou de que ele já possuía parte do território grego, e, ao contrário de todos os outros comandantes, o aconselhou a retirar-se enquanto ainda era vencedor.

Xerxes decidiu seguir a opinião da maioria e perdeu a batalha de Salamina, tal como Artemisa havia previsto. Não obstante, ela se manteve leal a Xerxes e, quando a derrota era inevitável, tomou a decisão de salvar sua tripulação e fugir. Segundo Heródoto, depois da batalha, o rei procurou mais uma vez o conselho de seus comandantes. Todos queriam ficar e atacar novamente as ilhas gregas, exceto Artemisa. Mais uma vez, ao contrário de todos os demais, a rainha aconselhou Xerxes a considerar outra opção: deixar 300.000 soldados para trás para assegurar a zona peninsular e voltar para a Pérsia com a frota. Artemisa recordou a Xerxes pela segunda vez que ele já havia incendiado Atenas e ocupado as cidades-estados. Era suficiente. Desta vez, o rei aceitou seus conselhos e decidiu voltar para casa em vez de batalhar.

Aqui termina as pistas sobre as façanhas de Artemisa deixadas por Heródoto. Sabe-se, no entanto que os gregos ofereceram 10.000 dracmas como recompensa a quem capturasse Artemisa. Essa era a quantia mais alta entre as recompensas, que só era oferecida pela captura, vivo ou morto, de algum importante chefe peiratè.
O ultimo vestígio que se conserva de Artemisa é um pequeno recipiente, uma pequena jarra branca que se encontra no British Museum.(Stanley,1996:68)

Um século depois, uma conterrânea sua, Artemisa II de Halicarnaso, além de ordenar e comandar a construção do famoso Mausoléu, que figurou entre as sete maravilhas da antiguidade, ficou conhecida por empregar as mais ousadas táticas da pirataria para lutar contra seus inimigos.

Artemisa II:

“E foi ordenado que se alçassem duas estátuas de metal na praça, uma das quais era a de Artemisa e a outra da cidade de Rodes vencida.”

                                                                       Bocaccio

Artemisa II viveu no século IV A.C. Era filha de Hecatomnos da Cária que, aproveitando o fato de que o rei da pérsia estava envolvido em um conflito com o Egito, começou a cunhar sua própria moeda, claro sinal de independência.

Neste período, a democracia patriarcal grega foi abolida e foi restaurado o tradicional sistema de transmissão da linhagem, ou seja, a mulher voltou a jogar um papel fundamental na transmissão do poder, como ficaria claro nos tempos de Artemisa II, a principal figura da nova dinastia.

Artemisa II foi irmã e esposa do rei Mausolo, sucessor de Hecatomnos. Mulher culta possuía vastos conhecimentos sobre botânica e medicina.  Mausolo morreu em 353 A.C. e o “segundo espirito de Artêmis” o sucedeu como governante. A primeira coisa que fez foi mandar cremar o corpo de Mausolo, diluir as cinzas em vinho e as beber. Esse ato causou tamanha impressão que passou a memória dos europeus e inspirou inúmeros escritores e artistas, entre outros a Boccacccio que interpretou o gesto como supremo ato de amor. ( Gold,1997)[7]

Provavelmente, este gesto nada tenha a ver com amor, mas sim com politica. Os cários, assim como muitos outros povos, pensavam que os reis eram deuses encarnados, cuja energia não desaparecia com a morte. Ao tomar as cinzas de Mausolo, Artemisa absorveu a essência divina do defunto convertendo-se em uma deidade viva.

Durante seu reinado, de aproximadamente 3 anos, financiou todo tipo de obras poéticas e teatrais e ordenou a construção de um monumento funerário em honra de Mausolo. Na obra trabalharam os melhores escultores e arquitetos gregos e as gentes da época a considerou uma das sete maravilhas da antiguidade. A construção deu o nome a um tipo específico de construção funerária: o Mausoléo.

Mas Artemisa II fez muitas outras coisas nos anos em que governou. Entre outras coisas, demonstrou tanta astúcia e conhecimentos náuticos quanto os do primeiro “espírito de Artêmis.”

Os habitantes de Rodes, acreditando que o governo de uma mulher lhes oferecia uma ótima oportunidade de livrar-se do domínio dos cários, planejaram um grande ataque a capital, Halicarnaso. Inteirada sobre os preparativos do golpe, Artemisa II ordenou que a população acolhesse aos invasores como libertadores. De seu palácio pôde ver como o inimigo incorria no grave erro tático de desembarcar do lado do porto de onde não poderiam ter uma visão geral do que estava acontecendo. Quando desembarcaram e começaram a saquear a praça do mercado, a frota cária apareceu por um canal artificial conectado com o porto e se apoderou dos navios vazios, ao mesmo tempo em que, soldados ocultos abatiam os saqueadores. Artemisa então coroou os navios capturados com guirlandas de louros– tradicional símbolo grego de vitória - e os comandou de volta a ilha de Rodes. Como era de esperar, os habitantes de Rodes pensaram que seus homens voltavam vitoriosos quando divisaram as velas e acudiram em massa a praia para comemorar. Antes que o estratagema pudesse ser descoberto, os navios entraram no porto e os soldados de Artemisa venceram sem dificuldade seus inimigos. Artemisa mandou erguer um monumento em Rodes para comemorar sua conquista.

A rainha sabia que por tradição, os habitantes de Rodes, não destruíam nenhum troféu de guerra, nem próprio, nem alheio. Então, assim que a rainha levantou as âncoras, rapidamente construíram um pequeno edifício que cobria por completo o monumento.

Como sua antecessora, a heroína de Salamina, Artemisia II não se considerava grega, mas amava as obras da cultura helênica. Mas esta simpatia não era mútua. Os atenienses, principais aliados de Rodes, a desprezavam porque ela, assim como sua predecessora, encarnava a tirania e a barbárie. E para os gregos, estes conceitos estavam indissoluvelmente ligados às mulheres.

Talvez por isso, para provocar uma vez mais seus inimigos, a rainha mandou esculpir nos frisos do Mausoléu os épicos combates que os civilizados gregos enfrentaram contra as Amazonas quando os deuses ainda eram jovens.

Artemisia, como a maior parte das rainhas piratas foi quase uma amazona, uma dessas mulheres que convertiam em pesadelos os sonhos dos gregos.

Rainha Teuta de Ilíria, o terror do Adriático.

Oh! Teuta, rainha! Tua castidade conjugal, para todas as esposas, um espelho deve ser!

Chaucer

 

Teuta tornou-se regente em nome de seu enteado, Pinnés, quando seu marido Agrón, rei da Ilíria[8] morreu em 231 a. C.

De fato, o pouco que se sabe sobre Teuta, - nem sequer sabemos seu nome: Teuta significa “a que dirige o povo.” - nos convida a pensar que foi uma dessas pessoas que condicionam o curso dos acontecimentos históricos. Ela não se limitou a protagonizar um capítulo da história, mas o escreveu. Teuta é considerada a “Catarina, a Grande” da Ilíria.

Teuta não apenas conservou intacta a herança de Ágron como deu um passo adiante e, mostrando talento inato para a administração desenhou um ambicioso plano de criação de um império Ilírio: ocupou as colônias gregas de Fénice e Antigonea e pouco depois a ilha de Corfu que possuía um grande valor estratégico, pois de lá se podia controlar a Grécia e o sul da Itália.

Uma das primeiras decisões de Teuta como rainha foi dar permissão para que seus navios saqueassem todos os barcos que navegassem ao longo da costa ilíria. Cada vez que os barcos voltavam com os tesouros roubados, Teuta recompensava a tripulação. Muitas vezes ela liderava os navios em suas incursões, o que lhe rendeu o apelido de “o terror do Adriático.”

As incursões ilírias chegaram a preocupar seriamente as autoridades romanas, pois já não se tratava mais dos tradicionais assaltos isolados. Agora, os piratas efetuavam longas e planejadas expedições que chegavam a saquear as cidades do sul da Itália e da Sicília.O Senado romano decidiu então enviar embaixadores para reclamar compensações e solicitar o fim dos ataques. Mas segundo a lei ilíria, a pirataria era legal. Durante a visita, um dos embaixadores romanos tratou a rainha de uma maneira tão desrespeitosa que ela decidiu acabar com suas vidas. Teuta embarcou os cadáveres e os enviou a Roma. 

Os romanos então declararam guerra a Ilíria. A armada romana que constava de 200 barcos navegou imediatamente para Corfú e obrigou o governador nomeado por Teuta a render-se. Com um ataque combinado entre a frota naval e o exército, os romanos foram conquistando uma depois da outra as cidades ilírias até sitiar a capital. Finalmente, Teuta se rendeu e teve que aceitar um tratado de paz tremendamente desfavorável. Os romanos permitiram que ela continuasse reinando, mas limitaram seu território a uma pequena zona ao redor da capital e lhe exigiram um tributo anual e, o mais importante de tudo: a proibiram de comandar barcos armados. (Stanley,1996:30)

A história de Teuta tem um curioso epílogo. Muitos séculos depois, Geoffrey Chaucer, autor dos Contos de Cantuária, elogiou a rainha pirata – e também a Artemisa II – em um de seus relatos: “A viuvez sem par de Artemisa, é honrada através de toda barbárie. Oh! Teuta! Tua marital castidade, para todas as esposas um espelho deve ser”

Chaucer transformou a comandante pirata em uma casta viúva cuja moralidade deveria ser seguida por todas as esposas. O poeta inglês sabia muito pouco sobre “aquela que manda no povo”. Provavelmente seus conhecimentos sobre a vida de Teuta se limitavam ao que disse sobre ela São Jerônimo. (Sánchez, 2006)

São Jerônimo dedicou uma boa parte de sua prolixa produção “as pagãs virtuosas”, Entre muitas, faz uma breve alusão “aquela que dirige o povo”, afirmando que Teuta “deveu seu grande poder sobre os bravos guerreiros e suas frequentes vitórias contra Roma, a sua maravilhosa castidade.” (Sánchez,2006)

Na sua obra Contra Jovinianus, muitas “pagãs virtuosas” aparecem atirando-se ao fogo depois de serem violentadas e a honradas mães de família matam seus filhos e depois se suicidam para não serem desonradas pela soldadesca vitoriosa.

Uma das possíveis razões pelas quais Teuta foi incluída nesta longa lista de matronas pagãs deve-se talvez ao fato de que além de Santo, Jerônimo era ilírio e conhecia profundamente os costumes de sua gente.

Os Ilírios são tão raivosamente patriarcais que até meados do século passado, alguns grupos das montanhas do norte (a atual Kosovo) acreditavam que a mãe não participava na procriação. Para eles, como para qualquer cultura patriarcal, é uma desgraça não ter um descendente homem. Quando isso ocorria, para manter o patrimônio, o poder e o sobrenome, recorriam ao mashkull. A palavra significa literalmente “hoje por hoje” e serve para designar as mulheres que de forma provisória assumem o papel de homem e mantém o clã vivo até que se encontrasse um sucessor masculino. Estas mulheres deviam adotar roupas masculinas, comportar-se como homens e guardar castidade total. (Young, 1999)

Desse modo, pode-se dizer que para São Jerônimo, Teuta era casta porque se converteu em uma virgem jurada para guardar a herança do enteado. E pelas mãos de Chaucer transformou-se numa casta viúva.

Lobas de outros mares

Piratas, contrabandistas, bucaneiras, corsárias, negreiras, chamemos como chamemos, existiram em todas as épocas, em todos os mares e de todos os extratos sociais. Muitas mulheres viveram no e do mar como pescadoras, comerciantes, assalariadas da marinha e formaram parte de tripulações de piratas, da população dos portos e dos refúgios de corsários. Muitas delas eram camponesas, expropriadas, delinquentes comuns, prostitutas e também ex-escravas. Algumas eram nacionalistas que lutavam contra a dominação estrangeira em seus países, perseguidas, renegadas e hereges.

No século I no mar báltico e no mar do norte, os antepassados dos vikings também praticaram a pirataria em grande escala e claro, não faltaram mulheres. Como Alvilda, a princesa guerreira sueca, cuja vida é narrada por um monje do século XII. Ele conta que, para não casar-se fugiu de casa, reuniu uma tripulação feminina e tornou-se uma guerreira do mar. A saga conta que as mulheres chegaram a um lugar um grupo de piratas estava lamentando a morte de seu capitão e que ao verem Alvilda ficaram tão impressionados com sua valentia que pediram a ela que os comandasse. Ou talvez tenha encontrado um navio vazio e sem vigilância e simplesmente o levou. Naqueles tempos a lei dinamarquesa estipulava que os navegantes podiam ficar com qualquer objeto que encontrassem no mar, inclusive os navios. Alvilda saqueou tantos barcos no mar Báltico que o rei enviou muitas frotas até conseguir prendê-la. A saga termina quando um dos pretendentes rejeitados, a encontra vestida de homem e casa-se com ela.( Stanley,1996)  Na idade média, a partir do século VI as croatas compartilharam o protagonismo com as vikings entre as quais estava a filha de Erik, o vermelho Freydis, Sigrid, a soberba ou Rusla.

Também havia piratas de outras nacionalidades como alemãs e francesas. Entre estas últimas cabe mencionar Jeanne de Clisson que no século XIV, tornou-se corsária para vingar a honra da família. Casada com um conde bretão e mãe de dois filhos, sua vida transcorria comodamente até que Felipe VI acusou seu marido de alta traição e mandou decapitá-lo. Clisson não esperou seus filhos crescerem para consumar a vingança. Aproximou-se de Eduardo III da Inglaterra – em plena guerra dos cem anos – que lhe deu três barcos e três patentes de corsária. Rapidamente ficou conhecida como a Leoa Sanguinária e se converteu no pesadelo de Felipe VI. Com a espada em punho, dedicou-se a arrasar e queimar povoados normandos. Suas abordagens tornaram-se lendárias. Contam as estórias que seus barcos eram negros, sua bandeira vermelha como o sangue e que a Leoa não tinha nenhuma piedade. Quando os navios de Felipe conseguiram – depois de muitas horas de uma batalha sangrenta – derrotar os corsários de Clisson, ela já havia escapado com seus dois filhos em uma pequena embarcação e durante dias vagou pelo mar sem água nem comida. Seu filho caçula morreu no mar e o maior com o tempo acabaria se tornando aliado do assassino de seu pai.( (Rowe, 2000)

Chegada a Idade Moderna, o Mediterrâneo era outra vez um mar de piratas. A literatura faz eco de suas façanhas, por exemplo, em Cervantes que conta histórias – fictícias ou baseadas em realidades difusas -  de piratas espanholas, italianas, mouras,  enquanto que a área de Tetuán, cidade ao norte do Marrocos era feudo corsário de uma sultana do século XVI de nome Sayyida al-Hurra.( Mernissi,2003) Muito mais ao norte, na Inglaterra isabelina, Lady Killigrew, integrante de uma das mais famosas famílias de piratas, colocava em prática o que melhor sabiam fazer os seus: roubava barcos. (Rowe, 2000)

Também nessa época viveu a irlandesa Grace O’Malley cujo verdadeiro nome em gaélico era Grainne Ni Mhaille, pertencia a pequena nobreza que remontava ao século XII e era anti inglesa, pois sua família não havia rendido vassalagem a Enrique VIII. Nascida em 1530, falava gaélico e muito mal o inglês. Oficialmente cristã, conservava a religião druídica por cujos ritos se casou duas vezes. Participava junto a seu pai nas lutas dos clãs e famílias irlandesas e era uma marinheira como poucas. Entre 1550 e 1600 foi uma pirata temida e tida como sanguinária. Possuía uma grande frota com a qual atacava as populações costeiras da Inglaterra e assaltava barcos, incluindo os turcos e os espanhóis.

Isabel I da Inglaterra ofereceu 500 libras por sua cabeça. Foi capturada duas vezes e duas vezes escapou. Nos últimos anos de vida, pediu e obteve da rainha um acordo pelo qual esta aceitava suas reclamações de terras e lhe concedia o perdão, convertendo-se assim em sua aliada. Seu castelo ainda pode ser visto na ilha de Claire. Dizem que morreu fazendo o que mais gostava: atacando um navio. [9]

Talvez Grace O’Malley pensasse  como Ella Maillart – viajante que conheceu muitas estradas – “ A melhor maneira de se desfazer de um desejo obsessivo é realiza-lo!”(apud Lapierre, 2007)

Atrancando ( Considerações finais )

Pode-se dizer que o sexo tinha um papel secundário na imensa maioria das organizações piráticas, porque ao contrário do que ocorre na atualidade, o poder politico e econômico não residiam no indivíduo - qualquer que fosse seu sexo - mas na família. Uma mulher que pertencesse a um grupo de parentesco dominante possuía uma autoridade impensável para um homem de outra família.

A maioria das mulheres estava subordinada a seus esposos, mas jamais se inclinavam ante seus filhos. Em muitas sociedades pré- capitalistas o mando, o carisma e a autoridade dependiam mais da idade do que do sexo. A viúva do patriarca se convertia automaticamente em matriarca e comandava com mãos de ferro os destinos de homens e mulheres mais jovens até que falecia, dando passagem assim para que o homem maior de idade passasse a comandar o grupo. Nestas sociedades, a presença de mulheres no poder, são exemplos da regra, não da exceção.

Frente a esse modelo, que poderíamos chamar de mediterrâneo, existia o modelo atlântico no qual a mulher tinha mais autonomia e poder de decisão. Neste tipo se encontram as piratas escandinavas como Alvilda e as piratas bretãs, e irlandesas. Trata-se de zonas “mal romanizadas” ou tardiamente cristianizadas. Regiões onde a civilização ocidental – o direito romano, o cristianismo, a filosofia misógina etc.. – se mesclou com pautas culturais prévias.

As sociedades tradicionais, incluindo as piráticas, perderam terreno frete a cultura dominante – a ocidental – à medida que transcorria o tempo, e seus modos, usos e costumes foram perseguidos e aniquilados.

Na introdução de sua história geral da pirataria Daniel Defoe, autor de Robinson Crusoe fala da luta dos romanos contra o roubo aquático; enaltece os roubos dos corsários ingleses porque suas vítimas espanholas eram negligentes e corruptas e finaliza clamando contra o mecenato do roubo aquático exercido pelos reis da dinastia dos Bourbon:

“(...) concedem comissões a um grande número de buques de guerra, com o pretexto de impedir o comércio fraudulento, com ordem de apressar todos os barcos ou navios que encontrem dentro das cinco léguas de sua costa, o que os nossos buques ingleses não podem evitar em suas viagens a Jamaica. E se os capitães espanhóis se excedem neste cometido e roubam e saqueiam, se permite que as vítimas apresentem suas queixas e acudam aos tribunais e depois de grandes gastos nos pleitos, demoras e outros inconvenientes, talvez consigam uma sentença a seu favor. Quando vão reclamar o barco e a carga, descobrem para sua consternação que tudo foi previamente confiscado e repartido.”(Defoe,2006:62)

 Para Defoe, fiel defensor do capitalismo e de seu modelo familiar baseado na subordinação da mulher, o livre comércio, o Estado-nação e a economia capitalista eram incompatíveis com a pirataria, tanto no aspecto econômico quanto social.   Daí a demonização que fez de Bonny e Read,[10] duplamente monstruosas por serem mulheres livres e piratas.

Que vínculos unem estas piratas às mulheres aventureiras, viajantes, exploradoras da terra ou do mar? Através do espaço e do tempo o que têm em comum estas mulheres de personalidades tão diferentes? A capacidade de saber reconhecer seu instinto e reafirmar seu desejo. Não deixaram que nada, nem ninguém – nenhuma ideia, nenhum medo – as apartassem do essencial e lhes despojassem de sua alma.  Atreveram-se.

Portos       (Bibliografia Geral )

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Nota biográfica:

[1] Carla Cristina Garcia é doutora em Ciências Sociais – Antropologia-  pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) com  pós-doutorado pelo Instituto José Maria Mora (México, DF). É professora assistente doutor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Coordenadora do Inanna. Núcleo transdisciplinar de investigações de sexualidades, gênero e diferenças da pucsp.É autora de dos livros Ovelhas na Névoa um estudo sobre mulheres e a loucura (Ed.Rosa dos Tempos/Record); Produzindo Monografia (Ed. Limiar); As Outras Vozes: memórias femininas em São Caetano do Sul (Ed.Hucitec);Hambre del Alma as escritoras e o banquete das palavras( Ed. Limiar) e Sociologia da Acessibilidade( IESD). Breve História do Feminismo (Nova Alexandria)

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notas

[2] Em seu livro Wayward women, publicado em 1990, Jane Robinson reuniu quatrocentos nomes de escritoras de viagem apenas de língua inglesa.  Nos últimos vinte anos, muitos outros livros foram lançados. Cf. bibliografia final deste artigo.

[3] Tanit, a deusa lua, provável personificação da Grande Deusa Astarte (romana Juno)

 [4] É o mais antigo problema de que há registro que envolve máximos e mínimos e tem sido objeto de muitas generalizações ao longo dos tempos   Cf. "A Dido Problem as modernized by Fejes Toth" http://www.cs.nyu.edu/faculty/siegel/D33.pdf

[5] Em algumas tradições ela era parcialmente uma deusa da fertilidade e na Líbia os deuses da fertilidade eram sacrificados sendo colocados em uma pira em chamas.

[6] Halicarnaso, nunca foi uma cidade totalmente grega, ainda que tenha sido fundada por gregos. Seus habitantes – os Cários – constituíam mais da metade da população e seus costumes bárbaros eram considerados repugnantes para os refinados gregos.

[7] De Claris Mulieribus Como na coleção de biografias De viris illustribus de Petrarca, Boccaccio  escreveu entre 1361 y 1362 uma série de biografias de mulheres ilustres que foi dedicada pelo autor a Andrea Acciaiuoli, condessa de Altavilla. Este livro serviu como fonte bibliográfica a muitos escritores entre eles Geoffrey Chaucer, autor dos Contos de Cantuária. Cf. In:  Sex and gender in medieval and Renaissance texts: the Latin tradition Barbara K. Gold,Paul Allen Miller,Charles Platter, New York, SUNY Press, 1997

[8] Abarca os territórios das atuais Albânia, Croácia, Bósnia e Montenegro.

[10] Anne Bonny y Mary Read,( sec. XVII) são as duas mulheres piratas mais conhecidas. Suas vidas inspiraram vários livros e filmes. Cf o livro de Tamara Eastman y Cosntance Bond: The Pirate Trial of Anne Bonny and Mary Read.Cambria: Fern Canyon Press,,2000. 

 

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