labrys,
études féministes/ estudos feministas
Feminismo no México: diversidade de vozes Eli Bartra Resumo Neste texto faz-se uma pequena revisão do que se considera mais importante no que diz respeito às lutas feministas ao longo de um século no México. Propõe-se uma forma de periodização e coloca-se ênfase particular nas lutas neofeministas das três últimas décadas do século XX que representam uma continuidade e uma ruptura com relação às décadas precedentes, em particular, às lutas pela igualdade de direitos políticos, pela cidadania plena para as mulheres e sociais, como a educação. Palavras-Chave: feminismo, mulheres, sufragismo, política, direitos, neofeminismo
As lutas das mulheres mexicanas pelos seus direitos, em pensamento e ação, duraram todo o século XX e vinham de antes, sobretudo, das manifestações pessoais ou de grupo do século XIX. De certa forma poderíamos pensar em três grandes etapas destas lutas, principalmente, na cidade do México.[1] Em primeiro lugar, teríamos as lutas anteriores ao neofeminismo da década de 70, denominadas muitas vezes simplesmente sufragistas. São as lutas tanto coletivas como individuais por determinados direitos das mulheres como a educação ou o sufrágio. Tratava-se de modificar as leis ou elaborar o que hoje denominamos políticas públicas frente à atuação das mulheres nas diferentes esferas do âmbito público. Portanto, era fundamentalmente uma luta política na arena social. No final do século XIX, durante o Porfiriato, as mulheres sempre presentes reclamavam os direitos que lhes pertenciam e de que careciam; alguns dos quais nunca tinham tido , como o direito à cidadania plena, ao voto. O veículo privilegiado que as mulheres vêm utilizando ao longo de um século, no México e em outras partes do mundo, para protestar, conscientizar, exigir, lutar por seus direitos e a imprensa. Assim, durante o Porfiriato apareceram as publicações La Siempreviva, Las Hijas del Anáhuac, El Álbum de la Mujer, Violetas del Anáhuac. E em plena Revolução Mexicana Hermila Galindo fundou e dirigiu La Mujer Moderna (1915-1919). (Orellana Trinidad, 2001). No México nunca existiu um movimento sufragista multitudinário que tomasse as ruas com as características dos de outras partes do mundo, no entanto, já nestas primeiras publicações aparecia a questão do outorgamento do voto as mulheres. Em plena revolução e acobertado pelo governador progressista e reformador social do estado na época, Salvador Alvarado, realizou-se o Primeiro Congresso Feminista de Yucatán em janeiro de 1916 para discutir, sobretudo, a questão da educação, os direitos políticos, os papéis de gênero e a prostituição. (Olcott, 2005: 28. Cortina G. Quijano). A professora Consuelo Zavala foi nomeada para encabeçar o Comitê Organizador. O Segundo Congreso Feminista de Yucatán se realizou em dezembro de 1916. Nesse mesmo mês e ano, Hermila Galindo e Edelmira Trejo de Mellón levaram ao Congresso Constituinte a petição do voto para as mulheres, que foi rejeitada. O primeiro sindicato de mulheres das fábricas têxteis, principalmente da área metropolitana do Distrito Federal, foi Las Hijas del Anáhuac criado em 1907. Apesar de ser sobretudo antirreeleição também lutava por “uma melhoria geral da mulher na sociedade”. (Porter, 2008: 141). Em algum texto faz-se menção do Primer Congreso Feminista de Tabasco em 1915, mas não contamos com nenhuma informação que o fundamente e não se sabe com certeza se se realizou. (Vallejo y Navarro, 2004: 32). Mulheres que lutem pelos direitos das mulheres há havido durante séculos, sob a forma de vozes isoladas. Em certas ocasiões, no entanto, encontravam-se organizadas se bem que poucas vezes de maneira significativa. Em boa medida, esse foi um dos argumentos para não lhes concederem o voto em 1917. “As mulheres não sentem pois a necessidade de participar nos assuntos públicos, como demonstra a falta de todo movimento neste sentido”. (Diario de los Debates del Congreso Constituyente, 1916-1917, citado por Tuñón, 1987: 184). Uma história da Revolução de 1910-1917 que contemple a participação das mulheres ainda está por escrever, no entanto tem-se investigado pouco a pouco e extraído da escuridão a participação das mulheres motivo pelo qual já não é mais uma gesta única e exclusivamente de indivíduos do sexo masculino. O que se sabe é que as mulheres estavam por toda parte, em todos os bandos, em maior ou menor medida; no entanto, esse não é o ponto aqui, pois estou me concentrando unicamente nas lutas das mulheres pelos seus direitos como mulheres, se bem que não há dúvida que as ações individuais e coletivas de caráter político, militar, sindicalista, etc., de muitas mulheres durante esses anos convulsionados serviram para ir abrindo caminho. Quase no final da Revolução, no ano de 1919, cria-se o Consejo Nacional de Mujeres que pouco depois mudou de nome e passou a ser o Consejo Feminista Mexicano, com demandas fundamentalmente sufragistas. Publicaram sucessivamente La Mujer em 1920 e La Vida em 1923 cuja diretora foi Julia Nava. Também organizaram dois congressos: um em 1919 e outro em 1925. (Lau, 2009: 303). A Liga Panamericana de Mujeres organizou no D.F. em 1923, por exemplo, o seu Primer Congreso Feminista de tendência comunista, no qual se falava do direito ao sufrágio e em 1925 o Primer Congreso de Mujeres de la Raza. As organizações que estiveram por trás destes congressos foram a Unión Cooperativa de Mujeres de la Raza e a Liga de Mujeres Ibéricas e Hispanoamericanas. (Lau, 2009: 326. Tuñón, 1987:184-185). A segunda e a terceira década do século vinte estiveram saturadas pela já conhecida efervescência cultural. Artistas nacionais e internacionais encontraram um campo fértil para a criatividade. E a mesma coisa aconteceu no campo da política em geral e das mulheres organizadas em particular: vemos um tipo de ebulição política.[2] Nessa época proliferaram os consejos, os congressos, as ligas, as frentes e as uniões de todas as cores. Em 1931 e em 1933 são organizados na Cidade do México o primeiro e o segundo Congreso Nacional de Obreras y Campesinas e em 1934 o terceiro na cidade de Guadalajara. Seu caráter foi eminentemente feminista. [3] Em1935 funda-se a Frente Único Pro Derechos de la Mujer, amplamente estudado, que chegou a ter cinquenta mil afiliadas e é justamente uma das poucas organizações massivas para obter o voto e com certeza uma das mais significativas desse período, se bem que de vida autônoma e efêmera já que em 1938 soma-se ao partido oficial (PRM) durante a presidência de Lázaro Cárdenas.[4] Elvia Carrillo Puerto foi uma incansável lutadora socialista : afirma-se que esteve na organização de mais de cinquenta ligas feministas. Também foi a primeira deputada eleita em 1923 quando ainda não se havia conquistado o sufrágio feminino. Durante o “corporativismo cardenista patriarcal”, em 1937, foi demitida do seu emprego no governo. (Peniche; Lamaître, 1998. É preciso lembrar que o presidente Cárdenas mandou a iniciativa de reforma ao artígo 34 constitucional em que se estabelecia a cidadania das mulheres em 1937. No entanto, apesar de ter sido aprovada por ambas câmaras e pelas legislaturas dos estados, não se deu a declaratória final nem a publicação no Diario Oficial. O voto em eleições municipais se obteve em 1946 só em 1953, durante a presidência de Adolfo Ruiz Cortínez, e as mulheres puderam votar e ser votadas. Mas, a pesar de não ter existido um movimento sufragista massivo, as lutas pelo sufrágio feminino duraram cinco décadas do século XX com vozes constantes que o demandavam. Doña Amalia González Caballero de Castillo Ledón, uma das sufragistas mais destacadas do país, funcionária pública e diplomata, e outro desses personagens-chave para a obtenção do sufrágio, não sozinha, mas era ela quem tinha as conexões pessoais e o cargo à frente da Comissão Interamericana de Mulheres em 1948. O voto havia sido exigido uma e outra vez desde o final do seculo XIX, mas o último passo quem deu foi, em grande parte muy a la mexicana, Doña Amalia ao pedir ao candidato Ruiz Cortínez, de forma pessoal, o “favor” de conceder o sufrágio feminino. Ele disse que “sí como no”(“claro que sim”), mas que ela deveria conseguir meio milhão de assinaturas pedindo-o. Dessa forma, criou-se a Alianza de Mujeres de México, obtiveram-se as firmas e conquistou-se o voto. (Tuñón, 1987 y 2008). A luta das sufragistas era pela igualdade de direitos e também por uma democracia. Uma vez obtido o direito ao voto as lutas ficaram semicongeladas por alguns anos por toda parte e a autêntica democracia continua sendo uma quimera. Dentro desta maré de ações é preciso mencionar a extraordinária voz de Rosario Castellanos. Escritora de todos os gêneros literários e poderosa feminista. Mujer que sabe latín… é um ensaio que bem poderia ser a versão mexicana de Um teto todo seu de Virginia Woolf. E as bruxas continuam conspirando?: em torno às lutas feministas na Cidade do México Em segundo lugar temos o que pode se chamar neofeminismo que surgiu na década de 1970. Foi uma revolta que descartou paulatinamente a idéia de igualdade entre os sexos e apostou na diferença; as mulheres conformam um gênero diferente, pensava-se, com similitudes entre todas; a opressão e a discriminação pelo simples fato de sê-lo tornava-as semelhantes. Este movimento político e social é, sem dúvida, o mais importante da segunda metade do século XX no Ocidente –e não somente. Foram revoltas centradas no corpo, na sexualidade, no pessoal . Daí que se propusesse a consigna de “o pessoal é político”. Foi um movimento sobretudo para dentro. (Se bem que também se queriam modificar leis ). Foi a partir daí, do pessoal, que se passou à ação pública. O neofeminismo se caracterizou fundamentalmente pela sua espontaneidade, por suas manifestações escandalosas no inicio e pela militância através de pequenos grupos. Por um lado, desenvolveu-se um trabalho de tomada de consciência e, por outro, levaram-se a cabo ações públicas que faziam muito barulho e que foram extremamente espetaculares. Agitaram-se, sem duvida, as águas estancadas da inércia dos anos posteriores à obtenção do sufrágio e esta nova onda representou ao mesmo tempo continuidade e ruptura. Assim como dividi em três o desenvolvimento das lutas em termos gerais, também com respeito a esta onda podemos falar de três etapas claramente diferenciadas: a) No principio da década de 1970 criou-se o primeiro grupo do neofeminismo que foi o MAS (Mujeres en Acción Solidaria), de existência efêmera, mas que foi a origem do MLM (Movimiento de Liberación de la Mujer) criado em 1974, que devido à sua capacidade de chamar a atenção e, devido também à realização da Conferencia do Ano Internacional da Mulher em 1975, teve uma autêntica presença, uma voz própria e sobretudo um grito que se fazia ouvir. O Ano Internacional da Mulher não foi necessariamente o que de mais importante aconteceu nessa década, como se faz pensar desde as instituições. Foi, no entanto, a primeira investida forte frente à institucionalização do neofeminismo. É por isso, porque aí era onde estava o dinheiro, que passou à historia como o que houve de mais significativo e se minimizaram de golpe dez anos de lutas no país. Em 1976 criou-se a Coalición de Mujeres Feministas que aglutinou seis grupos e que tinha três eixos de luta muito claros, que tinham sido fundamentais em todo movimento de libertação da mulher em outras partes do mundo: contra a violação, despenalização do aborto, assim como a denúncia e a defesa das mulheres agredidas. Cada uma destas questões tem uma historia particular que já foi descrita em diversos espaços. (Bartra, 1992: 23-33; Lamas, 1992: 9-22). Também se elaborou a Lei de Maternidade Voluntaria e foi entregue em 1979 à Coalizão de Esquerda da Câmara de Deputados; daí foi parar, simplesmente, na lata de lixo. Apareceram também várias publicações como La Revuelta e Cihuat. É preciso destacar que a revista mensal fem se manteve quase trinta anos na sua versão impressa e apareceu em 1976 sob o impulso das intelectuais Alaíde Foppa, desaparecida na Guatemala em 1980, e Margarita García Flores. Uma das características fundamentais das mobilizações dessa década foi a autonomia em relação aos partidos, aos sindicatos, às instituições, ao governo, aos homens. No entanto, no século XXI este assunto começa a ser questionado e as novas gerações se resistem a continuar com esta autonomia. O neofeminismo –como em outras partes do mundo- fincou suas raízes no movimento estudantil de 1968, que representou o seu antecedente histórico mais imediato, e do qual não surgiu uma demanda sequer a favor dos direitos das mulheres, no entanto, viram-se aparentados no que se refere à desobediência civil. É evidente que as mulheres desempenharam um papel de comparsas durante o movimento estudantil mexicano e esse fato foi um elemento que contribuiu para o despertar da consciência da subalternidade feminina. O neofeminismo, assim como outros movimentos sociais, não era estruturado, não contava com declarações de princípios, nem táticas nem estratégias de luta cuidadosamente reflexionadas; era uma revolta improvisada. Não obstante, logo apareceram as diversas formas de se organizar para obter mais resultados em menos tempo. Isto se acha presente em qualquer organização política, seja de homens, de mulheres ou mista e essa foi, também, a historia de todas as organizações das primeiras décadas do século XX. O fato de ser um movimento de classe média e de ter-se banhado sempre nas águas do anarquismo, do marxismo ou do socialismo desembocava, com frequência, numa espécie de sentimento de culpa que havia que remediar; uma culpa perante os privilégios de classe com relação a mulheres de setores mais desprotegidos. Por isso, de maneira recorrente, se buscou a aproximação com outras classes sociais. Daí veio a criação, por exemplo, da publicação María, liberación del pueblo que apareceu em Cuernacava, Morelos e durou uma porção de anos. Com a criação da Frente por la Liberación y los Derechos de las Mujeres em 1979, que representou a marcada aproximação aos partidos e sindicatos, dá-se passo à seguinte década. b) O feminismo popular que surge na década de 80 caracterizou-se fundamentalmente pelo estreitamento dos vínculos entre as feministas de classe media, os partidos políticos, a igreja católica e, sobretudo, as trabalhadoras remuneradas urbanas e rurais. É possível afirmar que seu atuar nesses anos esteve selado pelo assistencialismo. Isto é, levar a cabo tarefas de ajuda social em relação às mulheres que necessitavam de apoio legal, médico ou psicológico. Na realidade, levavam-se a cabo as tarefas que lhe correspondem ao Estado e os resultados foram muito diversos. Nesta etapa o movimento cresce, se multiplica e se desenvolve o processo de institucionalização. No mesmo sentido, aparecem os Estudos da Mulher (e posteriormente de gênero) nas instituições de educação superior. Em 1982 surgem os Encontros Feministas Nacionais e também os Encontros Feministas Latinoamericanos e do Caribe, para onde iriam tanto as chamadas mulheres institucionais como as autodenominadas autônomas, além das ativistas do movimento amplo de mulheres. Em 1985, depois do devastador terremoto na Cidade do México e ao sair à luz pública a problemática das costureiras que perderam tanto, certas feministas também se aproximaram delas e estiveram próximas da criação do Sindicato de costureiras 19 de setembro. Em 1988 levou-se a cabo o IV Encontro Feminista Latinoamericano e do Caribe em Taxco. Mantinha-se a resistência perante a iminente institucionalização, a crítica e a revolta mas, a radicalismo ia em franca retirada. É nesta época que se inicia a instauração de diversas instituições governamentais a favor das mulheres e o processo de "onguização " ou seja, a transformação do movimento feminista numa multiplicidade de Organizações Não Governamentais (ONG), principalmente com financiamento internacional -europeu e norteamericano- e uma ou outra com base na filantropia nacional aonde se institucionaliza. A luta pela despenalização do aborto continuava congelada. Avançou-se, entretanto, quanto às penas a violadores. Além disso, deputadas de diferentes partidos conseguiram criminalizar o acosso sexual. O feminismo perde um pouco a sua capacidade de constante impugnação, perde o seu papel de consciência crítica. A resposta espontânea e rebelde perante as manifestações mais aberrantes do machismo adormeceu e não houve um revezamento geracional no movimento, tampouco no seio das instituições. É só a partir de meados da década de 1990 que se dá a incorporação de jovens. Formaram-se várias ONGs mistas e inclusive alguma só de homens como CORIAC (Colectivo de hombres por relaciones igualitarias A.C.) Começaram a destacar as diferenças mais que as semelhanças entre as mulheres. Com base nas distintas experiências de vida, na classe social a que se pertence, na raça, a etnia, o idioma ou a preferência sexual, em função do país, da região ou do bairro em que se nasce, todas as mulheres se viam diferentes entre si; aparece a noção de feminismos, em plural. Talvez seja pertinente destacar que o fato de reconhecer as especificidades dos sujeitos ou grupos não deveria ser uma razão para negar o genérico: continua existindo um denominador comum de opressão entre as mulheres pelo fato de sê-lo. É claro que as diferenças entre ser negra, índia ou branca, pobre ou rica, lésbica, heterossexual ou trans, somarão outras opressões e discriminações, em ocasiões inclusive mais graves, mas a de gênero propriamente dita, segue presente e é compartilhada. Além disso, pode se ver iniciar o processo que se consolidará no século XXI que é o de privilegiar as ações políticas para fora, para o âmbito público. c) A década de 90 significa a plena institucionalização e a burocratização do movimento neofeminista; no entanto, paralelamente dá-se a sua legitimação que, por sua vez, abre novas possibilidades. Por meio da multiplicação numa miríade de ONGs consolida-se a onguização do movimento; institucionaliza-se tanto em organismos governamentais, como não governamentais e no âmbito acadêmico onde alcança um tímido e esquálido apogeu e, de algum modo, se legitima. Surgem também as feministas profissionais que trabalham para o feminismo e vivem graças a ele, aflora dessa maneira, o que se pode chamar de profissionalização do feminismo que vai de mãos dadas com a institucionalização. Durante os primeiros anos de luta pelos direitos das mulheres de uma determinada onda ou etapa, pode-se dizer que se vivia para ela, e depois de algum tempo foi possível viver dela; como aconteceu na década de 1950, em que já existiam as feministas profissionais, e se repete no final do século XX. Isto representou uma diferença em relação aos anos 70 quando se estava contra a existência de dirigentes e de hierarquias. Quando se trata de grupos pequenos e fechados em si mesmos pode se manter uma certa uniformidade e inclusive anonimato, mas quando se sai e se participa em distintos âmbitos públicos, seja na mídia ou no seio das diferentes instituições, requerem-se rostos, nomes e individualidades. Como exemplo anedótico referirei que quando o Coletivo La Revuelta tinha uma publicação homônima todos os textos eram coletivos, nenhum tinha assinatura pessoal. Quando começamos como grupo a colaborar no jornal Uno más Uno, com um editorial semanal, só alguns artigos se assinaram coletivamente mas isso logo terminou, tinha que aparecer um nome em cada texto. Dessa forma, o feminismo, no final do século XX se tornou cada vez mais sereno e reflexivo. A questão das publicações se solidifica com o aparecimento em 1990 da revista Debate feminista e que se vem publicando ininterruptamente até hoje, sempre sob a direção de Marta Lamas que leva quarenta anos nessa luta. Por outro lado, nessa década pudemos ver que já tinha se passado de falar das mulheres agredidas ou de violência contra as mulheres, a falar de violência intrafamiliar. Ou seja, as mulheres foram invisibilizadas novamente. Como o foram por trás do conceito de gênero que se converteria na famosa “perspectiva de gênero” de ocas ressonâncias. Os estudos da mulher passaram a ser estudos de gênero quando nem sequer se haviam consolidado plenamente. Paralelamente surge o feminismo vinculado com o movimento neozapatista que se levantou em armas no dia primeiro de janeiro de 1994 em Chiapas. É da maior importância a promulgação da Ley Revolucionaria de Mujeres com seus dez pontos que se publicou em El Despertador Mexicano em dezembro de 1993. ( El despertador Mexicano, 1993; EZLN. Documentos y Comunicados, 1994: 45-46. Com a organização do Congreso Feminista por el Cambio Social em 1996, tentou-se reviver, sem muito sucesso, a necessidade de realizar reuniões fortes e plurais, mas foi importante já nesse momento a participação de jovens. No entanto, nesses anos a ideia da unidade do movimento foi minada, apostou-se na diversidade e nas diferenças entre as mulheres; se diluiu o denominador comum. Se queremos levar a cabo determinadas atividades e fazer avançar a eliminação do sexismo na nossa sociedade, com frequência se requerem recursos econômicos e, o dinheiro, já sabemos quem tem: o governo ou os ricos, a iniciativa privada, e ambos para dá-lo impõem as suas condiciones. As instâncias do governo estão dirigidas, principalmente, por gente do partido que tem o executivo federal, hoje em dia o Partido de Acción Nacional (PAN). É muito difícil imaginar que alguém desse partido possa levar a cabo uma política realmente progressista para as mulheres. Novo século, novos giros Se estamos vivendo no começo do século XXI, outra vez frente à política formal é preciso fazer o melhor uso possível disso e valer-se também do poder do voto a favor das mulheres. Ao exercer esse direito (que às mulheres tanto custou obter) não significa que se acredite firmemente na limpeza das eleições e na democracia. É simplesmente mais uma forma de manifestar a vontade cidadã, e um instrumento, não o único, para conseguir que governe –por quê não ?- o menos ruim, o mais favorável para as mulheres e também, quando é pertinente, para que as mulheres obtenham postos de eleição popular. Se já não vamos apostar numa revolução armada que transforme o nosso sistema, se as revoluciones armadas triunfantes do século XX que derrotaram velhas ditaduras nefastas se converteram na mesma coisa, ou parecida, se vamos a ser governados/as por alguém de qualquer jeito, é imprescindível usar a voz e o voto. O aborto foi despenalizado na capital do país em 2007; no entanto, o backlash (reação adversa) se fez sentir em dezoito estados da República nos quais se proibiu totalmente, inclusive em caso de violação e se chegou a prender mulheres que abortaram. No que diz respeito à violência contra as mulheres em todas as suas formas, avançou-se no campo da consciência, portanto, no da denuncia, e no das leis. No entanto, a reação foi o surgimento em 1993 dos femicídios em todo o território nacional, sem esquecer nem um momento que talvez o pior caso continue sendo o de Ciudad Juárez com 1093 assassinatos de mulheres.[5] Em 2010 realizou-se em Zacatecas o Encuentro Nacional Feminista que há dezoito anos não se realizava e, como se vê no nome, pareceria ter sido más importante o caráter nacional que o feminista. Mas a verdade e que aí marcou encontro um feminismo múltiplo, diverso, vigoroso e com participantes de âmbitos muito diferentes. É significativo destacar que se bem que nas primeiras décadas do século XX se realizaram congressos feministas aos montes, no final do mesmo século como que pararam de repente. Assim, vê-se com claridade que no século XXI com o “regresso” (impossível o regresso real, é só uma figura retórica) da luta política formal, abre-se uma nova época e é, sem dúvida, o momento também de apostar numa volta à autonomia. Hoje diz-se que o político é pessoal. A institucionalização seguirá o seu curso e não seria possível dar marcha à ré nesse processo. É só que se existem as condições de criar novos espaços de luta, talvez seja conveniente e necessário tornar a examinar a questão da autonomia. Pode ser que já tenha se formado uma espiral dialética. Representará o feminismo do novo século uma síntese dos dois anteriores? Será o feminismo sufragista a tese, o neofeminismo a antítese e o do século XXI a síntese? há, sem dúvida, um aquelarre (convenção de bruxas) de novo cunho; há alianças inéditas de todos os tipos e logram-se avanços em relação aos direitos das mulheres (com os consequentes retrocessos , é claro). Parece cada vez mais evidente que o movimento feminista só poderá se renovar e avançar politicamente -como movimento impugnador por excelência do patriarcado e todas as suas manifestações- a partir da autonomia política e organizativa, o que não significa, nem deve ser confundido, com o separatismo ou a marginalização. Ao mesmo tempo, estão surgindo novas formas, novos sujeitos populares feministas como as mulheres indígenas, cuja participação tem sido mais do que significativa em numerosos Encontros e Reuniões de Cúpula desde o fim do século passado e durante toda a primeira década do novo século nas quais têm se manifestado questões estritamente feministas. (Valladares de la Cruz, 2004:127-147). Um bom exemplo disto representam a declaração e plano de ação da Primera Cumbre de Mujeres Indígenas de las Américas, realizada em Oaxaca em 2002, o parágrafo de encerramento diz o seguinte: “Afirmando que uma perspectiva de gênero se refere às relações de poder entre homens e mulheres, uma perspectiva que permita um equilíbrio entre mulheres e homens que garanta uma olhada inclusiva a partir da pluralidade e diversidade, do exercício dos direitos individuais e coletivos de seus povos”. (“Declaración y Plan de Acción. Primera Cumbre de Mujeres Indígenas de las Américas”, 2002. Isto evidencia de que maneira o feminismo indígena se encontrava impregnado das preocupações pósmodernas e dos direitos humanos dos povos índios generizados. Por outro lado, as mulheres jovens levam um bom tempo se expressando com sua própria visão de mundo e aumentando em número. E, também se escutam, cada vez más fortes, as vozes do pensamento queer. A questão do gênero tão badalada nos últimos tempos, ou melhor, dos gêneros, na nossa sociedade – sabemos bem que se refere a construções que se elaboram a partir dos corpos sexuados: fêmea® mulher; macho®homem. No entanto, os gêneros não significam a sexualidade, dá-se por sentado que os corpos sexuados são para a reprodução, ou seja para a heterossexualidade, então: mulher= mamãe, homem= papai. Não obstante, os sujeitos masculinos e femininos exercem sexualidades diversas. Só na ideologia e no imaginário social é que existe isso de que homens e mulheres devem se ancorar na heterossexualidade obrigatória. Na verdade, os gêneros foram e são independentes da sexualidade, e a homossexualidade vem demonstrando isso desde tempos imemoriáveis.[6] Vejam bem, os sujeitos transgenéricos criam um conflito ao pretender encaixilhá-los. Quando se nasce macho, se constrói uma identidade genérica feminina e se exerce uma sexualidade “polimorfa e perversa” o que se é? Talvez a perspectiva destes sujeitos seja a que vá colocar a questão do gênero de cabeça pra baixo em mais de uma situação. No entanto concordo plenamente que “o transexualismo não parece representar uma transgressão às categorias de gênero que poderia, finalmente, contribuir para a destruição do sistema das relações de poder entre homens e mulheres. Pelo contrario, aparece como uma reprodução invertida destas relações de poder”. (Mercader, 1994:138). Continuo pensando que a tarefa fundamental do feminismo é a de consciência crítica radical, algo assim como a ponta de lança da mudança da condição das mulheres. Sua função substantiva é a impugnação constante do sexismo. A ação afirmativa, a atenção a mulheres violadas e agredidas, a ajuda a mulheres que desejam abortar, em suma, o assistencialismo, corresponde indefectivelmente às instituições estatais, devem ser programas de governo e não dos grupos feministas. As ações feministas são aquelas dirigidas a criar a consciência para que desapareçam os violadores, para que os homens deixem de ser violentos e parem de matar as mulheres só por ser mulheres. Isto tem a ver com revolucionar a vida doméstica, para que mude a existência cotidiana. Uma meta que resulta fundamental alcançar é que os homens compartilhem em igualdade de condições o trabalho doméstico e a criação dos filhos; isto tem resultado ser endemoninhadamente difícil. Só desta maneira, as mulheres deixarão de ter massivamente duplas jornadas de trabalho. As mulheres devem ter a possibilidade de aceder ao poder, mas este fato não é uma ação feminista em si e, com freqüência, não tem nada a ver com o empoderamento. As tarefas pendentes, não há duvida, são árduas e compridas, mas teriam que estar principalmente no terreno da transformação das mentalidades que modificará, por sua vez, usos e costumes da vida. Podemos vislumbrar então que, por um lado, está se consolidando a ditadura do gênero especialmente no mundo da política formal e das instituições de governo e, por outro, abrem-se diversas possibilidades de luta a partir, sobretudo, das necessidades das mulheres jovens de diversos âmbitos sociais que conformam hoje os novos sujeitos sociais por excelência. Outras vozes, outras ações, serão escutadas e vistas a partir das distintas realidades das mulheres que, apesar de tantas décadas de pensamento e lutas feministas, continuam padecendo o sexismo ou francamente a misoginia. Referências Bartra, Eli, María Brumm, et al. La Revuelta. Reflexiones, testimonios y reportajes de mujeres en México, 1975-1983, México, Martín Casillas, 1983. ---------. "Mujeres y política en México: aborto, violación y mujeres golpeadas", Política y cultura, México, UAM-X, Nº1, otoño 1992. pp. 23-33. ---------. 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Biografia Eli BARTRA, nasceu na Cidade do México. É doutora em filosofia e professora-pesquisadora titular da Universidad Autónoma Metropolitana-Xochimilco. Foi cofundadora e coordenadora do Mestrado em Estudos da Mulher e da área de pesquisa “Mujer, identidad y poder” da mesma universidade. É Investigadora Nacional II. Publicou numerosos textos sobre arte e feminismo. É autora dos livros Frida Kahlo. Mujer, ideología y arte, En busca de las diablas y de Mujeres en el arte popular. De promesas, traiciones, monstruos y celebridades. Compiladora de Debates en torno a una metodología feminista, Creatividad invisible y coautora de Feminismo en México ayer y hoy, entre outros. Crafting Gender. Women and Folk Art in Latin America and the Caribbean (Durham, Duke University Press, 2003); Creatividad invisible. Mujeres y arte popular en América Latina y el Caribe, (México, PUEG/UNAM, 2004); Debates en torno a una metodología feminista (México, UAM-X, 1999). Coautora de La Revuelta. Reflexiones, testimonios y reportajes de mujeres en México, 1975-1983, (México, Martín Casillas, 1983) y de Feminismo en México, ayer y hoy, (México, UAM, 2000). Obteve a bolsa de estudos Fulbright de pesquisa 2000-2001 para ir à Universidade de Duke, USA. Tem sido convidada por diversas universidades da América (Estados Unidos e América Latina), Europa, Àsia, Oceania. Tradução do espanhol: Augusta Rios. [1] Em 1900 tinha 700 mil habitantes e em 2010 cerca de 9 milhões sem contar a área metropolitana em sua totalidade, ou seja, 13 vezes mais. [2] Ver Ramos Escandón, “La participación política de la mujer: del fusil al voto 1915-1955”. [3] Ver “Mujeres soñadoras del infinito. Primer Congreso Nacional de Obreras y Campesinas”, 2003; Olcott, 2005; Martínez, 2005. [4] Ver Tuñón, 2008; Tuñón, 1992. [5] Dado até 2 de novembro de 2010. [6] A última batalha ganha neste sentido é o direito a contrair matrimonio na Cidade do México a partir de 2010 e a possibilidade legal de adotar como casal.
labrys,
études féministes/ estudos feministas |