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juillet/décembre 2011 -janvier /juin 2012  - julho /dezembro 2011 -janeiro /junho 2012

 

História e escrita de si na literatura memorialística de Maria Helena Cardoso

Cláudia J. Maia

 

Resumo:

O artigo tem como proposta discutir a escrita de si e aspectos da história das mulheres nas obras Por onde andou meu coração e Vida, vida da escritora mineira Maria Helena Cardoso. Nessas obras, a autora percorre suas próprias vivências e experiências reconstruindo a partir delas, fatos e acontecimentos que marcaram sua vida de menina em Curvelo a mulher celibatária chefe de família no Rio de Janeiro. Ela fala de muitas mulheres, das amizades e paixões, da família, de sofrimento e morte, mas principalmente, fala de si mesma. Ao escrever sobre si, Helena mostra-se ao outro e, ao mesmo tempo, se constitui enquanto sujeito na própria narrativa.

Palavras-chave: Maria Helena Cardoso; escrita de si; mulheres, literatura mineira.

 

Maria Helena Cardoso nasceu na cidade de Diamantina em 1903, passou sua infância em Curvelo e em outras pequenas cidades do interiormente; em 1914, a família mudou-se para Belo Horizonte, onde ela cursou o ensino secundário no Ginásio Mineiro. Foi também nessa cidade que ela iniciou suas leituras e sua grande paixão pela literatura e pela música clássica. Em 1923, época em que ainda eram raras as mulheres que se ingressava em cursos superiores, ela concluiu o curso em Farmácia, mas nunca pôde exerceu essa profissão. No mesmo ano, mais uma vez a família mudou-se, agora e definitivamente para o Rio de Janeiro, onde ela passou a trabalhar como secretária até aposentar-se em 1967. No Rio, junto com o irmão Lúcio Cardoso, conviveu com reconhecidos escritores, intelectuais, poetas e jornalistas. Morreu em 1997 aos 94 anos. Para Ruth Silviano Brandão, Maria Helena ao lado de vários outros escritores e escritoras faz parte da “intelectualidade esquecida”, por não terem se dedicado ao romance ideológico que “exibem um quadro social muito característico”, privilegiado pela crítica literária (BRANDÃO, 2004 :.80). 

Embora uma escritora fina e de exímio talento, conforme ressaltou Clarice Lispector (1973), capaz de “pegar numa asa de borboleta sem quebrá-la”, somente começou sua carreira literária aos 64 anos. Em seus escritos, sempre se considerou uma pessoa tímida e covarde usando esse argumento para justificar o seu não engajamento como escritora no mundo das letras, como descreve em Vida-vida:

Hoje irei falar com José Olympio sobre a edição do meu livro de memórias. Octavio me preveniu para não ficar muito otimista, tudo por enquanto não passando de conversa. Se ele soubesse que na verdade não me importa tanto assim editar meu livro! Sei lá, enfrentar a crítica não deve ser agradável e por mim prefiro ficar esquecida [...] O que dizer, quais as perguntas que me farão lá? Saberei conversar com desembaraço, vencendo minha incrível timidez, sem que parece tola? (CARDOSO, 1973, 42-43)

[...] meu coração bate desordenadamente [...]. Parece mais que cometi um crime do que escrevi minhas memórias. Tenho tal medo que chego a desejar não seja publicado... (Id.Ibd. : 46)

Entretanto, o que suas memórias deixam entrever é que ela – como muitas escritoras da sua geração e anteriores – não tinha “dinheiro e um quarto só para si” para escrever, conforme a conhecida assertiva de Virginia Woolf (2005, p.18). De família empobrecida e pai “aventureiro”, Helena teve desde muito cedo que ajudar no sustento da mãe e dos irmãos menores, criando condições para o irmão Lúcio dedicar-se à literatura. Assim, foi obrigada a empregos fora da sua área de interesse ou de formação profissional, que não gostava e onde parece não ter sido bem-sucedida; o trabalho em escritórios era na década de 1920 quando iniciou sua vida de emprego remunerado fora de casa, um dos poucos abertos às mulheres. Além disso, a admiração e o sucesso do irmão parecem ter aumentado seu “medo” ou ofuscado seu desejo de lançar-se a carreira de escritora:

Lembrei-me com certa tristeza do que Walmir me disse à hora do almoço: que estava convencido de que eu era realmente uma escritora e que se não tinha aparecido até agora devia-o somente ao meu enorme respeito por Nono [Lúcio Cardoso]. No primeiro momento fiquei feliz, cheguei mesmo a acreditar (a vaidade está sempre latente). Quem sabe esta minha incapacidade para qualquer outro trabalho não teria sua razão de ser? Sentia-me justificada de todos os meus fracassos no escritório, onde qualquer funcionária sem grandes conhecimentos desempenhava muito melhor as minhas funções, eu a eterna distraída, a fora do ambiente. (CARDOSO, 1973 :.14)

Seu primeiro livro Por onde andou meu coração publicado em 1967, pela José Olympio Editora, obteve sucesso de crítica e de venda[1]. De família errante, sempre se mudando de um lugar a outro em busca de melhoria de vida, nesse livro, Helena percorre suas vivências e reconstrói a partir de suas lembranças, fatos, histórias e acontecimentos que viveu em diversos lugares por passou. Segundo ela, “escrevi para não perder inteiramente meus pais, minha infância, uma época...” (CARDOSO, 1973, p.47), “quis fazer reviver pessoas amadas, mortas para o mundo, mas vivas dentro de mim” (Id. p.102).

 Seis anos depois publicou Vida-vida, também no estilo memorialístico, nele, o foco da narrativa são seus sentimentos mediante a morte que rondava a família e os amigos, o sofrimento e paralisia do irmão Lúcio, seu envelhecimento e a vida. Em 1979 publicou Sonatas perdidas: anotações de uma velha dama digna, um romance que mistura personagens reais e ficcionais, mas, assim como suas obras anteriores, seguiu a linha memorialística. Em um manuscrito encontrado no arquivo pessoal de Lúcio Cardoso, Helena fala da sua preferência pela literatura íntima:

Cada dia me interesso menos pela ficção, se a ficção me interessa menos, a curiosidade pelo diário, memórias, aumenta. Quero saber como viveram antes de mim outras pessoas, as suas relações perante os sofrimentos e alegrias. O que me interessa, não é somente saber como viveram, mas principalmente se souberam morrer. A experiência criada pela imaginação, eu a admiro, enquanto a experiência vivida me desperta paixão. (FCRB. Lc 08/320, prit. S/l., s/d).

   Em pesquisa anterior, procurei conhecer histórias de vida de mulheres celibatárias que viveram em um momento histórico em que o celibato apresentava-se como algo depreciativo às mulheres e funcionava como uma espécie de terror moral que coagia as mulheres ao casamento, onde elas tinham sua liberdade e autonomia mais facilmente controladas e onde a heterossexualidade compulsória estava assegurada (MAIA, 2011). Meu interesse por Helena surgiu do fato de ela fazer parte da geração dessas mulheres, e como muitas outras, “escapou” ao discurso do matrimônio e maternidade como destino inexorável das mulheres e única forma de felicidade e realização feminina. Seus escritos abrem, assim, possibilidade de tornar inteligíveis suas vivências, mas principalmente entender como uma mulher celibatária sexagenária constrói suas experiências e relações sociais, se constitui como sujeito, representa a si mesma e os/as outros.

Embora seus escritos sugiram inúmeros temas, nesse artigo limitarei a discutir aspectos da história das mulheres e elementos da escrita de si presentes nas obras Por onde andou meu coração e Vida, vida. Conforme argumenta Tânia Navarro Swain,

“faz parte da construção dos saberes e das estratégias de implantação da heterossexualidade compulsória a extinção da memória, dos traços das atividades das mulheres, em conjunto, ou individualmente” no passado; pois “[...] uma vez controlados os processos de construção do saber e o acesso a eles, é muito fácil negar a existência da criatividade e de presença incontornável das mulheres na história” (SWAIN, 2011a:.8)

. As memórias de Helena são não apenas evidências da criatividade feminina, por meio da escrita, mas, sobretudo nos fornece mais do que indícios dos fazeres femininos no passado.

Memória e história das mulheres

Desde o século XIX que escritoras brasileiras se lançaram na carreira das letras, registrando em seus escritos, suas experiências de vida, seus sentimentos, formas de perceber e se posicionar no mundo. Sobretudo através da literatura íntima (memórias, diários, autobiografias) essas experiências e vivências foram mais detalhadamente rememoradas, resgatadas, descritas e reavaliadas. Maria José Viana sublinha que enquanto no século XIX a escrita memorialística já se afirmava como gênero literário na Europa, no Brasil limitava-se a “parcas obras escritas obviamente por homens de renome entre a intelectualidade nacional”. Dessa forma, o caminho das memórias começou a ser trilhado pelas mulheres pouco depois da poesia e da ficção, mas de forma ainda muito tímida (VIANA, 1995.14).

Todavia, o diário íntimo, os cadernos de memórias, os cadernos-goiabada a que se refere Lygia Fagundes Telles (1997), em que elas registravam pensamentos, estados de alma, lembranças ou idéias, parece ter sido uma prática muito comum entre as mocinhas e senhoras burguesas e de elite, mas que ficaram restritas à família ou esquecidos em gavetas e baús empoeirados. Será, sobretudo, a partir do final da década de 1960 que estes registros saíram das gavetas e do âmbito familiar para ocupar espaço nas livrarias e bibliotecas ao lado de outras escritas e escritores. Nessas obras de cunho memorialístico, as mulheres procuravam com sua narrativa a inscrição de si mesmas (VIANA, 1995, p.16). Ao contrário das escritas masculinas, as femininas nesse gênero literário, conforme sublinha Ruth Silviano Brandão,

[...] apontam para uma visão subjetivada e intimista da vida, com inquietações pessoais, passando por fatos miúdos, relatos narrados de forma fragmentária ou reflexões sobre pedados do vivido, talvez marcado pela reclusão, em que os horizontes podem por vezes parecer demasiadamente estreitos para o leitor dos grandes romances (2004:.78).

Conforme conceituação de Massaud Moisés, a escrita memorialística, “visa a reconstrução do passado, com base nas ocorrências e nos sentidos grav:ados na memória”, sem preocupação com a veracidade de fatos narrados ou com a cronologia dos eventos.

(...) o andamento narrativo decorre com a apreensão de experiências julgadas relevantes por parte do autor, não apenas como testemunho de uma existência marcada por episódios pitorescos e incomuns, mas também das impressões que os outros lhe deixaram na memória (MOISÉS, 2004 :.280).

Nesse gênero de narrativa, a veracidade que possam ter os episódios “é menos documental que vivencial”, assim, conforme Moisés, ele aproxima “ainda mais do terreno ocupado pela narrativa ficcional ou pelo lirismo”(Id. Ibid.).

Este aspecto pode ser facilmente capturado através da riqueza de detalhes registrados por Helena em Por onde andou meu coração, escritos muitos anos após o vivido. Ela oferece uma verdadeira “descrição densa” de objetos, roupas, fantasias, cores, cheiros, ruas, praças, imóveis, decoração de casas, pessoas, etc. São lembranças de um passado descritas décadas depois, que dificilmente corresponderia à realidade com tamanha precisão.

A arte de lembrar misturada ao seu talento de romancista, nos transporta por uma viagem no tempo e em espaços, criando a impressão de ser familiar os lugares narrados, de sermos íntimos das pessoas saudosamente lembradas. Ela dá vida, emoção, sentimentos aos seus personagens retirados da vida real, muitas delas figuras sertanejas típicas, excêntricas, pitorescas, quase cômicas, que parecem saídas da sua imaginação como construções fictícias. Pessoas como Sá Maria da Ponte, Terto Veludo, o anão Faria, Sá Maria Papuda, Leopoldo de Amor, Sá Miloca, Sá Cota de Bilá e Cotinha de Primainês, as Filipas e as Cardinali, dentre muitas outras. A autora penetra em seus pensamentos e sentimentos, dando mais vivacidade à sua narrativa, como no episódio em que fala das pequenas rusgas cotidianas entre a prima Babita e a cozinheira Sá Maria:

Diabo de negra, pensava Babita, não desconfia. Aquela mania de tira-la do trabalho, perguntando as horas com uma voz rouca e antipática, que já não suportava mais. Não estava ali pra dizer horas. Ela que se arranjasse. Para que precisava de hora certa? Era apenas desculpa para se meter no quarto dela, para bisbilhotar (...).

A preta olhou-a sem compreender e retirou-se do quarto, seus passos perdendo-se no corredor. Enquanto subia a escada do porão que dava para a cozinha, ia pensando: mulher esquisita aquela; nos primeiros tempos, era toda delicadeza, parecendo até sua amiga: Sá Maria pra cá, Sá Maria pra lá e agora, sem que nem pra que, aquela cara fechada, aqueles maus modos. Vá a gente se ficar nos outros... (grifos meus)(CARDOSO, 2007:.289-290).

Conforme Moiséis, na escrita memorialística, “distorcido pela memória, o passado transfigura-se como se parecesse inventado, uma vez que o intuito reside menos no pacto autobiográfico estrito do que na reconstituição das lembranças que restaram do fluxo e refluxo dos dias”(MOISÉS, 2004, p.280). Assim, Helena fala para não deixar morrer o passado, objetivo e compromisso principal da sua escrita, mas fala também para reviver emoções, tristezas, alegrias, paixões, sonhos, pessoas queridas, saudades de uma vida. Ela escreve a vida e se eterniza pela escrita.

A narrativa de Helena é construída a partir das suas vivencias e experiências. Ela fala da sua infância pobre e sofrida na cidade de Curvelo, mas longe de querer despertar sentimento de compaixão no leitor, nos faz rir e se divertir com as brigas e brincadeiras de crianças, apresentando-se como uma menina faceira, esperta e curiosa que se metia em situações embaraçosas. Descreve o pavor da professora “neurastênica” dona Esmeralda de quem frequentemente sentia-se “humilhada” e “aniquilada”. Dona Esmeralda era proprietária de uma das duas escolas de Curvelo, que à época se ocupava de todos os aspectos da formação das meninas “de posição”, como sempre repetia. Além do ensino das matérias escolares, incluía no currículo as aulas de costura – em que Helena passava muitos apertos, pois embora pertencente a uma família de costureiras não apresentava nenhuma habilidade ou interesse nesse mister – de música e boas maneiras.

Em Belo Horizonte, a ênfase de suas lembranças é no seu interesse pelas aulas no colégio e na Escola de Medicina. A passageira melhoria de vida da família que lhe possibilitou adquirir livros e discos. O gosto pelo francês, pela música e pela literatura, registrando a veemência com que lia os livros de todos os gêneros literários e as peripécias que fazia para adquiri-los. Nesta época leu: Miguel Zevacco, Perez Escrich, Alexandre Dumas, quase tudo de Júlio Verne, Paul Bourget, Dostoievski, dentre muitos outros.

Mas é a família o foco central da sua narrativa. Extensa, empobrecida, mas de certo prestígio em Curvelo, preservava alguns valores aristocráticos como a importância dada à educação, as artes e aos costumes. Pertencia à família Vianna – pelo lado materno – uma das que tradicionalmente controlava a política local e os cargos públicos importantes, assim, embora pobres, tinham lugar cativo no cinema e de destaque nas festas e comemorações tradicionais, sobretudo as da igreja. Composta pela avó, tios, tias, irmãos e a mãe, ora morando todos juntos, ora em casas separadas, a família se caracterizava acima de tudo por permanecer sempre unida e em torno das mulheres.

A avó e tios acompanhando a mãe, Nanhá em suas mudanças de uma cidade para outra, sempre em busca de uma vida melhor. O pai era um engenheiro carioca que chegou a Curvelo a fim de trabalhar na construção da estrada de ferro Central Brasil; homem disputado pelos melhores partidos, preferiu casar-se em segundas núpcias com a mãe, moça pobre da cidade com que teve seis filhos. Embora presença forte na vida dos filhos, nessas lembranças pouco aparece justamente pela ausência constante da família. É descrito como aventureiro e sonhador, um homem que não teve muita sorte na vida, fracassando em todos os negócios que empreendeu. Coube à mãe a tarefa de criar e educar sozinha os filhos, Fausto, Adalto, Regina, Helena, Lúcio e Lourdes; e constantemente recomeçar a vida em nova cidade, sempre que o marido vislumbrava uma situação melhor para a família em outro lugar ou se aventurava em um novo negócio.

 A liderança e chefia feminina é, assim, uma característica marcante da família de Helena. Primeiro a avó, seguida de Tidoce, tia solteirona, a mãe e ela própria. A avó, Leopoldina, foi obrigada a assumir o sustento da família, pois, o marido “absolutamente incapaz para a vida prática”, depois de muitos insucessos nos negócios que se metia começou a beber tornando-se completamente apático até morrer, deixando-a viúva, com quatorze filhos pequenos, na mais absoluta pobreza. “Para sustentar a família, batia máquina dia e noite, só contando com o aluguel de duas escravas que lhe tinham cabido como herança do pai” (CARDOSO, 2007, p.351). Quando já estava velha, o sustento da casa ficou a cabo de Tidoce, modista famosa em Curvelo, com o auxílio de outras duas tias solteironas, Sanóre e Dazinha. A mãe, mulher de grande inteligência, culta, respeitada, admirada e amada em Curvelo; era interessada por política e entusiasta da Revolução de 1930; apaixonada pelo marido de quem suportou “todas as suas infidelidades de homem bonito”; amava a vida e os filhos;

A sua atividade intelectual, entretanto, não prejudicava os seus deveres de mãe de família pobre: na semana em que estava na cozinha, preparava comida para duas famílias, sem por isso deixar de lavar a nossa roupa, costurar, fazer enxovais de batizado para ajudar Tidoce nas despesas da casa (...). Era enérgica e ai dela se não o fosse, a educação dos filhos tendo ficado inteiramente a seu cargo. Expansiva e alegre, era orgulhosa, no bom sentido da palavra, e fechada com relação aos seus problemas íntimos (...). Ao lado do charme que lhe emprestavam sua inteligência e vivacidade, fisicamente era também dotada: elegante e de traços regulares, agradava a todos, pois, sabendo costurar, mesmo com poucos recursos, conseguia vestir-se com graça e elegância (Id. Ibid : 149-150).

Dedicada e preocupa com a educação dos filhos conseguiu formar um médico, um advogado, as duas filhas em farmácia; e Lúcio Cardoso, que se tornou um dos grandes e admirados escritores da literatura brasileira. Os casamentos mal-sucedidos da avó e da mãe serviram de parâmetro e justificativa para a opção pela solteirice das tias e dela própria. No Rio, a avó e Tidoce mortas, a mãe envelhecida, foi a vez de Helena – das irmãs a que permaneceu solteira – dar continuidade a chefia feminina da família.

As memórias de Helena estão, assim, repletas de histórias extraordinárias de mulheres e de amizades femininas, a começar pelas da própria família. Em sua narrativa figuram lideranças comunitárias, profissionais, donas-de-casa, beatas, prostitutas, pianistas, viúvas, solteironas, loucas, ex-escravas, cozinheiras, domésticas, concubinas e muitas outras que se inspirou ou prestou atenção, como Aninha Veludo, filha de escravo e rainha da festa do divino; a pobre Emília Perácio, assassinada brutalmente pelo marido; Áurea, a doce professora de francês; Dona Isabel, a estranha estrangeira; Raimunda, a solteirona dona da farmácia; Babita, a mau-humorada prima-avó. Ela retrata um precioso e rico universo de mulheres do interior mineiro, com seus afazeres, a faina do dia-a-dia, suas lutas e esperas, aspirações, desejos, amizades e solidariedades.  

Este universo feminino densamente descrito por Helena nos remete ao Continuum lesbiano proposto por Adrienne Rich e desdobrado por Tânia Navarro Swain. O continuum consiste em “[...] toda a gama de experiências do ser mulher e das relações afetivas mantidas entre as mulheres” – não necessariamente relações sexuais – tais como amizades, companheirismo, partilha, que foram sistematicamente apagadas ou silenciadas pela História.

Conforme Swain:

O continuum nos apresenta uma longa tradição de união, o que é totalmente contrário aos paradigmas sobre as mulheres, que seriam rivais e logo concorrentes ferozes. O continuum nos fala de amizade, de relações passionais, afetivas e/ ou eróticas; o continuum acende o medo patriarcal, uma vez que desvenda os segredos ocultos pelos saberes oficiais e mostra seres não submissos à dependência masculina. (SWAIN, 2011a: .8)

Autobiografia e Escrita de si

Helena fala de muitas mulheres, dos amigos, dos irmãos, mas principalmente, fala de si mesma, se constitui na própria escrita, perante o olhar do outro.  Por onde andou meu coração é uma viagem por lembranças, episódios, lugares em que pessoas são revividas. Vida-vida, por sua vez é uma viagem a sentimentos e a arte de viver.  A ênfase do livro recai sobre si e na relação com o irmão Lúcio Cardoso: narra o trágico Acidente Vascular Cerebral de Lúcio que o deixou parcialmente paralítico, suas crises de convulsão e seus pequenos progressos; lembra sua vida boêmia e despreocupada, mas sempre a partir de um sentimento, uma emoção que ela experimentou e vivenciou: angústia, tristeza, dor, alegria, alívio, orgulho, saudade, ansiedade, medo. Nessas travessias – que são suas obras – a autora se constitui “como alguém capaz de dar um depoimento de uma época e de espaços diferentes” (BRANDÃO, 2004:.78), e de existir singularmente.

Vida-vida segue o estilo memorialístico, a que a autora se filia, mas desta vez a narrativa assume características do diário e da autobiografia. Philippe Lejeune define autobiografia como a “narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz da sua própria existência, quando focaliza sua vida individual, em particular a história da sua personalidade” (2008 :.14), o que não exclui a crônica e a história social ou política. “Trata-se de uma questão de proporção ou, antes, de hierarquia: estabelecem-se naturalmente transições com os outros gêneros da literatura íntima (memórias, diário, ensaio) e uma certa latitude é dada ao classificador no exame de casos particulares” (Id. :15).

Margareth Rago ao estudar autobiografias da filósofa feminista Ivone Gebara destaca que sua narrativa

[...] não faz emergir, na leitura do passado, a figura de uma heroína individualizada, com seus feitos e glórias, como costuma acontecer nas autobiografias masculinas (SMITH, 1998, p.9). Ao contrário, abre-se para um amplo leque de relações intersubjetivas e enreda ou dilui o próprio eu numa extensa rede de relações... (RAGO, 2011 :.7).

Essa parece ser uma característica da escrita autobiográfica feminina, presente nas obras de Helena, aqui estudadas. Ela não se mostra como uma mulher de grandes feitos, mas como uma pessoa simples e sem atrativos e atos heróicos, mas, numa escrita profundamente sensível.

Vida-vida é uma narrativa descompassa, os textos foram escritos em diferentes momentos e não ordenados cronologicamente.  Embora alguns trechos assumam um tom confissional – característica do gênero autobiográfico moderno – não percebo tal escrita como um mero “exame de consciência” para redimir-se de culpas ou para encontrar e decifrar a essência de si, um eu coerente e unificado que reitera condutas e discursos normalizados (RAGO, 2011). Mas, seguindo a elaboração teórica proposta por Michel Foucault ao retomar as “artes da existência” dos antigos gregos e romanos – dentre essas a escrita de si –, vejo um eu móvel, que nunca é, mas estar, um trabalho de elaboração de si na escrita.

Agora era eu mesma quem estava ali e entretanto era outra. Outra que tinha vivido tudo que se findara e voltava. Voltava vivendo a mesma vida, porém mais calma, mais profunda. Viver é bom, mesmo depois de se ter vivido prazeres e desencantos. Tudo retorna mais calmo, mais suave. (CARDOSO, 1973 :.126)

Um das técnicas da escrita de si apresentada por Foucault é os hupomnêmata, espécie de livros de notas e suportes da memória, onde se anotavam “citações, fragmentos de obras, exemplos e ações que foram testemunhadas ou cuja narrativa havia sido lida, reflexões ou pensamentos ouvidos ou que vieram à mente”. Constituíam “uma memória material das coisas lidas, ouvidas ou pensadas”. Conforme Foucault, os hupomnêmatas

“formavam também uma matéria prima (...) para superar alguma circunstância difícil” tais como um luto, um exílio, a ruína ou a desgraça. (FOUCAULT, 2004 :. 47-148).

A escrita de Helena em Vida-vida se aproxima das características do exercício dos hupomnêmatas, que conforme Foucault, não se trata de um diário, de narrativas de experiências espirituais ou “de si mesmo”, cuja função seja uma confissão com valor de purificação; mas de “(...) perseguir o indizível, não de revelar o que está oculto, mas, pelo contrário, de captar o já dito; reunir aquilo que se pôde ouvir ou ler, e isto com uma finalidade que não é nada menos que a constituição de si” (Id. Ibid.).

Assim, ao escrever sobre si, ela mostra-se ao outro e, ao mesmo tempo, constitui a sua própria identidade mediante “a recolocação das coisas ditas”. (Id. Idid.). Conforme sublinha Norma Telles, “ao escrever o escrevente cria a si mesmo ativamente. Trata-se de se constituir como sujeito da ação racional através da apropriação, unificação e subjetivação do fragmentário e da seleção do já dito e já selecionado. (TELLES, 2009 :.8).

A Helena que vai se constituindo e se revela perante o olhar do outro é uma mulher sexagenária, culta, independente, sem beleza, que gosta de chope, gim-tônica, bares, aventuras, viagens e estradas sem destino, medrosa, mas ao mesmo tempo independente e forte. Amante da beleza, das coisas simples, da literatura, pintura, dos amigos, da vida e acima de tudo da música: “[...] o dia em que perder tudo não terei perdido nada se não perder a minha sensibilidade para ouvir música” (CARDOSO, 1973 :.263).

Uma mulher livre, mas que vê esvair-se sua liberdade mediante à experiências trágicas: a doença que faz perder o controle do próprio corpo: “Torno-me propriedade de médicos, escrava de exames e mais exames, eu que antes era dona de mim, da minha alegria ou da minha tristeza. Sinto-me como um livro de biblioteca pública a quem todos consultassem” (Id. Idib.p.299).  E a do irmão que a faz perder o controle do próprio tempo e espaço:

“[...] mais uma vez penso na liberdade. Não tenho mais a minha vida, vivo a dele”. (Id. Idid. p. 289). Ela que já estava acostumada a viver só, sem “laços de amor que me criassem compromisso” (Id. Ibid: 136).

Assim, a dependência que se estabelece do irmão – a quem tanto ama – faz com a liberdade, valor que lhe é caro, essencial e o mais cultivado em sua forma de viver, passasse a ser percebida como paradoxo:

“De novo as correntes e de novo o anseio pela liberdade [...] quero minha vida antiga, a vida em que ninguém precisava de mim, em que eu era só. [...] E o que farei sem o sofrimento, da liberdade sem amor?” (Id. Ibid. :.201).

Mediante a completa absorção e dependência do irmão doente, seu constante mau-humor e depois sua ausência repentina, a escrita foi, por um lado, um exercício de liberdade para Helena, momento em que poderia pensar e viver para si, situação historicamente negada às mulheres pelo seu dever de altruísmo (Cf. MOLINIER, 2006; MAIA, 2011). Por outro, se em Por onde andou meu coração a escrita foi uma forma de não deixar morrer pessoas e lugares do seu coração, Vida-vida foi uma forma de resistir, driblar e vencer a própria idéia de morte. Desvencilhar-se do sentimento de morte, do cheio da morte, do desejo de morte. Diz ela:

“Não quero pensar nem falar mais na morte. Entretanto, este pensamento não me deixa um instante sequer”. (CARDOSO, 1973, p.20).

E ainda:

“[...] penso na minha, na morte de uma mulher já velha que já viveu o seu tempo, foi e é feliz apesar de tudo, mas que continua amando a vida tanto quanto uma jovem de quinze ou dezesseis anos, o amor dos velhos à vida tão bela” (Id. Ibid :309).

Os escritos que se tornaram depois o livro foram elaborados durante e após a doença e falecimento do irmão que fez pesar e sentir ainda mais outras mortes que, na sua idade, tornaram sucessivas: a avó, o pai, as tias Darzinha, Sanóre, Tidoce, os tios Leopoldo e Oscar, os amigos Vito Pentagna, Jaime. Assim, o “medo da morte”, não aparece na escrita como decorrência inexorável da sua velhice, mas muito mais pela dos outros. Na experiência trágica e na escrita ela vai construindo também sua relação com a morte:

É difícil acreditar na morte, pelo menos na da gente. E quem sabe não será por isso a dificuldade muitas vezes de acreditar em Deus? Ele, no sentido espiritual, é vida, mas para nós é muito mais a morte. É tão mais fácil acreditar no corpo do que na alma, na morte![...] eis-me lutando para aceitar a idéia da morte, da minha morte.[...] Ainda não posso morrer, ainda não consigo acreditar na minha morte. E só se morre, só se pode morrer, quando se acredita nela (Id. Ibid.:.301-302).

Este exercício de colocar a morte no discurso escrito, de se constituir como sujeito mortal é também uma forma de reescrever a vida. Assim, o entusiasmo e o gosto pela vida também percorre o livro, contrapondo o discurso-presença da morte: “Nem a tristeza da situação de Nono, nem seu desalento alguns dias, nada consegue deter o meu entusiasmo pela vida, a minha vontade de ser eterna”. (p.159). Conforme ressalta Ruth Silviano Brandão ao falar sobre a obra de Helena,

Recriar a vida é reiventá-la, resgata-la da dispersão e do caos em que os acontecimentos se amontoam desordenadamente. A escrita é, então uma ordenação, uma reordenação em que os fatos ganham novas significações, eles se ressignificam e é por esse processo que o sujeito se constitui, pela palavra, na força da letra. (BRANDÃO, 2004 :.79).

 Assim, no trabalho de elaboração si e recriação da vida, a Helena profundamente religiosa, desencantada da existência, que se sente envelhecida, acercada e centrada no pensamento de morte do início da narrativa, não é coerentemente a mesma até o final. Ela vai se reconstituindo como sujeito amante da vida nas coisas mais belas e simples.

24 de Maio de 1967. Faço hoje sessenta e quatro anos de idade. [...] Absolutamente não me sinto uma mulher dessa idade. [...] minhas paixões atualmente se estendem à música, plantas, livros, objetos lindos, o mundo que amo cada vez mais e mais e que não me resigno a deixar. [...] Mas não sei ainda o que é ser velha, não tomei consciência, não me sinto uma velha ainda. [...] Ah! Ainda posso ser jovem, ainda o sou [...] Poderia cantar hoje, aos sessenta e quatro anos, de amor, de prazer de viver. Vida, Vida! (Id. Ibid. :179-180).  

Conforme mostra Tânia Navarro Swain, a velhice é

“[...] uma categoria social, criada para melhor separar o humano em hierarquias e impor modelos de consumo e de vida”. (SWAIN, 2011b  : 6)

Tal categoria é construída em oposição à outra, ou seja, a “juventude” enquanto pólo positivo. Assim dizer-se envelhecido(a),

“[...]mas guardando uma juventude de espírito” significa assegurar um lugar “no  grupo vencedor, aquele que dirige o mundo, que usufrui da vida, que ri e ama, já que o jovem é belo, portanto desejável, com uma alta cotação no mercado das sensações” . (id, ibid.)

No caso de Helena “negar a velhice” emerge como um exercício de recriar-se, mas também de recusa a uma condição social.

Considerações finais

Margareth Rago ao analisar as autobiografias de Ivone Gebara como escrita de si sugere que,

[...] o texto visa produzir um efeito irradiador, já que qualquer mulher, mesmo a mais pobre e a menos culta, tem uma experiência pessoal da qual pode falar e sobre a qual poderia construir suas interpretações. Falar da própria subjetividade, fazê-la emergir na escrita aponta, portanto, para uma dimensão política de luta pelo direito de existir em sua singularidade (RAGO, 2011 :.15).

Para além das contribuições à história das experiências femininas, em especial as relativas às relações afetivas e de amizade entre mulheres, que os livros de Maria Helena nos possibilitam, ao escrever sobre si, se colocar na escrita – uma mulher que não reúne os requisitos de constituição do feminino e da “verdadeira mulher” da sua geração, como mãe e esposa (MAIA, 2011) – ela também pode provocar esse “efeito irradiador” a que sugere Margareth Rago, sendo um exemplo de criatividade e existência feminina fora dos enquadramentos socialmente estabelecidos.

Referências

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Nota Biográfica

Cláudia de Jesus Maia é doutora em História pela UnB, com área de concentração em Estudos Feministas e de gênero e com período sanduíche na École des Hautes Études em Sciences Sociales (EHESS); é professora do Departamento de História da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes); líder do Grupo de Pesquisa Gênero e Violência – CNPq. Publicou dentre outros trabalhos, o livros A invenção da solteirona:conjugalidade moderna e terror moral. Ilha de Santa Catarina, Ed. Mulheres, 2011; e  Lugar e Trecho: gênero, migrações e reciprocidade no Jequitinhonha. Montes Claros, 2002; os capítulos “Corpos de escapam: as celibatárias”. In: A construção dos corpos. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2008; “Lembranças do Norte: espaço e memória na literatura de escritoras norte-mineiras”. In: Os nortes e os sertões literários do Brasil. Ed. Unimontes, 2009; e os artigos “Viver para si? O celibato feminino como ato político”. Labys, estudos feministas, 2007; “Michel Foucault e a crítica ao sujeito constituinte: diálogos com a teoria feminista”. Caminhos da História, 2008.


 

[1] Em 1974 a obra foi adaptada e reeditada pelo MOBRAL – Fundação Movimento Brasileiro de Alfabetização – em parceria com o Instituto Nacional do livro – ganhando ilustrações e letras grandes uma vez que estava direcionada à alfabetização de alunos; e em 2007 em comemoração aos 40 anos de lançamento da primeira edição, ganhou uma publicação especial, desta vez pela Civilização Brasileira.

 

labrys, études féministes/ estudos feministas
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