labrys,
études féministes/ estudos feministas
A leoa Blixen, sua saga e as anedotas do destino Norma Telles Resumo: Karen Bliken nasceu na Dinamarca e sempre sonhou em viver longe dali. Em 1914 partiu para a África colonial onde em uma fazenda que administrou encontrou a sonhada ‘vida nova’. Pensadora independente, observadora arguta dos cenários ao seu redor, passou dificuldades, mas considerou tristezas e adversidades como parte da vida do mesmo modo que os instantes de felicidade. Acabou por perder a fazenda e precisou mais uma vez, com mais de quarenta anos, inventar ainda uma outra vida para si. Tornou-se escritora e conheceu fama internacional. Palavras chave: aventura; Quênia; carreira literária
“Moi, je suis une conteuse, et rien qu’une conteuse” Isak Dinesen
Karen Blixen nasceu na propriedade da família, uma vasta extensão de terra na costa, ao norte de Copenhagen chamada Runsgstedlund, há séculos conhecida dos viajantes por nela estar situada a Estalagem. Foi esse antigo albergue, uma das “casas mais antigas – senão a mais antiga - entre Copenhagem e Elsinore” que a família Dinesen se instalara. “A região não era uma área de grandes estados separados e famílias singulares; a Zelândia do norte era propriedade da Coroa [...] os bosques eram parques de caça e os caminhos eram chamados de estradas do rei. Por todo canto [...] pode-se apontar locais da historia e da literatura dinamarquesas (Dinesen:,979:198)”. A estalagem, mencionada por viajantes desde 1700, era atraente, embora não fosse considerada prática pelos padrões do século XIX, “deve ter preservado algo da doçura de centenas de verões e do conforto de seus invernos (Dinensen,1979:202)”. Figuras históricas ali se hospedaram, uma delas um famoso poeta dinamarquês, Johannes Ewald (1773-1775). “O tempo passou pelo velho Albergue. Cem anos depois, outro jovem veio de terras estrangeiras e se estabeleceu em Rungstedlund. Ele era Wilhelm Dinesen, meu pai...(Dinesen,1979:204)”. A propriedade ocupa “uns quarenta acres de jardins, bosques e pântanos, tudo parecendo uma vastidão selvática (idem:202)”. Karen Christentze Dinesen, nascida em 1885, não gostava de seu apelido familiar e não tardou a usar outros nomes desde suas primeiras peças infantis, “Baronesa von Blixen-Finecke, por seu casamento com um primo sueco; Tanne e Jerie para seus amigos da África, brancos e negros, respectivamente [...]” (Thurman,s/d:19). Os admiradores, mais tarde, chamavam-na pelo nome de suas personagens, ou figurações imaginárias. Assim para uma amiga era ‘Lord Byron’, para a secretária Khamar, o velho cavalo; para os discípulos literários Pellegrina, Amane ou Scheherazade. Ismail, o carregador de armas que a acompanhava quando chegou à África, se referia a ela como Leoa Blixen, nomeação que tomei emprestada no título deste texto. Depois de retornar à sua terra escrevia-lhe cartas que começavam sempre: “Honorável Leoa” (Dinesen,1979b:60). Esse apelativo ressoa em uma de suas personagens, uma alter ego, Pellegrina Leoni, a diva que “era o que era: uma leoa alada (Dinesen,1979c:313)”. Karen amiúde se referia a si mesma como Sherazade. Idosa, na Dinamarca, “chamavam-na Baronessen, a Baronesa, na terceira pessoa de acordo com o costume feudal. Em seu túmulo fez gravar simplesmente Karen Blixen. A menina Tanne absorveu as influências diversas das famílias do pai e da mãe. Os Dinesens eram gente do campo, proprietários de terra, sem brasões mas aparentados com os nobres mais prestigiosos do reino. Eram afáveis, generosos, não se sentiam obrigados a deixar uma marca no mundo, embora tivessem absoluta confiança de seu lugar nele. Os homens eram viris, as mulheres elegantes e bonitas, consideradas ‘frívolas’ pelos Westenholz, a família materna. Blixen dizia que eram detentores de “grande e selvagem alegria de viver”, e por toda sua vida identificou ‘vida’ com a perspectiva paterna. Os Westenholz eram pessoas da cidade, intelectuais, burgueses típicos. Os homens eram comerciantes, haviam vencido e enriquecido pelo próprio esforço e trabalho, prezavam a honestidade e a frugalidade acima de tudo. As mulheres tinham ideais elevados, boa formação e eram feministas apaixonadas, algo raro na época. Pertenciam à Igreja Unitarista, eram puritanas liberais que reclamavam a igualdade de sexos e militaram pelo voto, mas não possuíam vitalidade, as energias empregavam em projetos práticos, especialmente em aperfeiçoamento moral e em uma opressiva autodisciplina. Nuances e vários aspectos aproximam as famílias, mas as diferenças entre elas organizaram o modo de pensar de Blixen (Thurman: s/d:20-33). “Eu tinha dez anos quando meu pai morreu. Sua morte foi para mim uma grande tristeza, de um tipo que provavelmente só uma criança sente” (Dinesen,1979:206). Wilhelm Dinesen se enforcou na casa que ocupava na capital durante as sessões do Parlamento ao qual pertencia. Os comentários tentaram explicar o ato drástico por uma depressão e o medo de enlouquecer devido a sífilis. De qualquer modo, sua morte marcou profundamente a menina, e a recordação dos passeios pelas florestas com o pai continuaram a norteá-la por toda a vida. Em uma carta de África para sua ‘muito amada e maravilhosa mãezinha’, datada do outono de 1921, Bliken descreve a diferença entre as famílias: “Minha maior desventura foi a morte de Papai. Ele me entendia como eu era, embora fosse tão jovem, e me amava por mim mesma. Teria também sido melhor se eu tivesse passado mais tempo com a família dele; sentia-me mais livre e à vontade com eles. Tenho a sensação que Mama [a avó, mãe da mãe], tia Bess [irmã da mãe], e toda a família, - tio Aage quando esteve aqui, - se é que se importam comigo, o fazem a despeito de eu ser como sou. Eles estão sempre tentando me tornar em algo bem diferente do que sou; não gostam de aspectos meus que penso serem bons”(Dinesen,1981:110). Tanne cresceu sem o pai que contrabalançava a influência das mulheres, resgatava-a da autoridade da avó e do ambiente doméstico. Sem ele ela cresceu em um ambiente de mulheres que impunham rígidos preceitos seguindo cegamente o receituário coletivo; um ambiente no qual a sensualidade passava longe, uma abordagem da vida enraizada na alta burguesia dinamarquesa da época. Considerou esse ponto de vista unilateral e a intenção altamente moral como sendo paralisantes na vida emocional e na formação de um indivíduo livre. A bondade e amor ilimitados tornavam impossível a expressão de qualquer oposição e a bondade familiar era contrastada com a maldade no mundo, tornando difícil o que poderia ser, analisa mais tarde, livre e descontraído. Menciona sempre a boa vontade da família, mas, apesar de não ser infeliz, considerou que “todas as minhas habilidades foram destruídas pela educação familiar; qualquer possibilidade para eu viver e agir, realizar alguma coisa como eu mesma, resultou em nada por causa disso” (Dinesen,1981:245). Ela se via como Lúcifer em revolta contra o Paraíso. Estudou em casa, como as irmãs e como elas não teve oportunidade de ver o mundo, aquele mundo que o pai lhe mostrara, afastado do limbo do lar, um mundo pleno de ensinamentos sobre florestas, animais, pássaros canoros, um campo cheio de atrativos, dando-lhe uma amostra da via masculina desinibida, livre e sensual, explana Thurman. Em casa, cercada de mulheres dignas, viveu uma mistura de incentivo à criatividade e impedimento a ampliação ou emprego dessa força; não encontrou incentivo ou encorajamento para seguir uma carreira nas artes, algo que ansiava intensamente. Desejava ser pintora. Conseguiu, depois de muitas disputas, permissão para frequentar a Academia em Copenhague e para tanto empreendeu suas primeiras viagens: esperava sozinha a condução que a conduziria à capital e de volta para casa. Tanne queria ser pintora, buscou boa formação e adolescente viajou pela Europa e por suas artes e, mais tarde, lamentou não ter talento bastante para ser a Gauguin da África. Ela não queria escrever, conta em uma carta que seria sempre uma escritora amadora, pois como seu pai se sentia mais a vontade entre caçadores, aventureiros, exploradores do que entre intelectuais. Chegou tarde à escrita, a resistência, porém, resguardou-a de começar muito cedo, mantendo-a dedicada ao que considerou sua vida escolhida, isto é viver na África, observadora e especialmente buscadora de outra vida e experiências, pois, “o mundo é cheio de histórias, de eventos, de ocorrências e estranhos acontecimentos que estão à espera de serem contados, e a razão de em geral permanecerem não contados é, de acordo com Isak Dinesen, uma falta de imaginação – pois somente imaginando o que de qualquer modo aconteceu, repetindo isso em imaginação, se consegue enxergar as histórias, e só se houver paciência para contá-las e recontá-las (“Je me les raconte et reraconte”) é possível contá-las bem” (Arendt, 1979:ix). Não queria ser escritora, mas criou desde cedo peças de teatro que as crianças encenavam em casa; escrevia histórias e poemas. Essa Juvenilia, que começou a publicar em 1904, ela assinou como Osceola – nome de um dos cães de caça de seu pai que por sua vez homenageara um líder indígena norte-americano que muito admirava. Oscelola (1804-1838) chefiou pequenos grupos de seminoles na resistência contra o governo que pretendia tirar os nativos de suas terras; foi admirado pelos contemporâneos e considerado grande guerreiro. Em 1907 Blixen publicou um primeiro conto, “Os eremitas” que contêm aspectos importantes de sua obra posterior como as forças que movimentam os seres vivos e o que é dado pela natureza – o inevitável. Em carta de 1954, esclarece, “Eu simplesmente não consigo perceber uma linha divisória entre a natureza e o homem [...] De modo geral, não sou capaz de entender um ‘dualismo’” (apud Hansen, 2003:136). Blixen rejeitou sempre linhas divisórias e segregações, um tema recorrente em sua obra e o motivo pelo qual se separa da moralidade e do caminho do cristianismo. “Pensamento e percepção em totalidades dão o verdadeiro retrato do mundo, enquanto a falsidade ocorre com a separação do todo em partes“ (Hansen idem). Em uma das cartas de África, datada de 20 de novembro de 1928, comenta, “Penso agora que sempre fui inconscientemente uma einsteiniana; por exemplo, em meu coração sempre estive convencida que o tempo era uma ilusão, e que ‘hier c’est demain’ [...] Penso que a imaginação é uma das qualidades, - senão a qualidade, - a qual a humanidade deve a maior parte de seu desenvolvimento; sem ela nada teria sido criado [...]” (Dinesen,1981:388-389). Central na obra e na vida de Blixen é a determinação do significado da arte e do amor; a arte que pode sustentar conceitos, portanto a materialização, e o amor que une as partes do todo. Na adolescência viajou pela Europa, mas sempre desejou ir mais longe. Em 1912 anunciou seu noivado com o Barão Bror Blixen-Finecke, um primo sueco que também desejava distante da Escandinávia. Logo o casal aconselhado por parentes resolveu partir para a África Oriental inglesa, vista como terra promissora e de futuro. A família materna de Blixen formou uma companhia com um capital considerável para financiar o empreendimento na colônia. Nenhum deles entendia de agricultura, nem de café; ela aprenderá, tocará a fazenda. A terra que adquiriram se situava a grande altitude, o que era inadequado para esse plantio, portanto, um elemento do desastre futuro estava presente desde o começo. Em janeiro de 1914, Karen Blixem partiu para Mombasa, para depois seguir para seu novo lar próximo a Nairóbi, no Quênia. Partiu para a grande aventura: “Sem dúvida é bem cansativo perceber na sociedade atual que aventuras quase sempre signifiquem ‘aventuras do coração’, quando nem todos, longe disso, tem inclinação para esse tipo de experiência; em nosso modo de vida esse tipo de aventura gradualmente se tornou a única que as pessoas têm a oportunidade de conseguir, mas penso que a maioria delas sente inconscientemente que existe mais nutrição para a alma e o espírito no perigo, em anseios selvagens e em arriscar tudo, do que numa existência calma e segura” (Dinesen,1981:307). A noção de aventura de Blixen é bastante interessante e ela própria destaca que é semelhante a dos somalis e demais africanos que não suportam uma vida sem acontecimentos, isso os torna desesperados. Essa noção de aventura foge dos sentimentalismos e dos mandamentos sociais especialmente para as mulheres, ao deixar as aventuras amorosas em segundo plano e privilegiar a busca de conhecimento e experiência. Ao iniciar sua longa jornada Blixen adotou um mote, pois, explica, “nós o escolhemos e antes que percebamos, ele nos selou e marcou”, a palavra é um programa e seu resumo, “existe antes da atividade ou ação e permanece depois de serem concluídas” (Dinesenk,1979:3). Ao todo ela teve cinco motes durante sua vida, o primeiro deles foi, Navigare necesse: vivre non est necesse Conta Plutarco que no século I, uma frota romana singrava o Mediterrâneo, meio a piratas e lutas. Ia buscar cereais para abastecer Roma imperial que se via ameaçada pela fome meio a uma guerra civil. Os marinheiros hesitavam em empreender a viagem, preferiam ficar na Sicília, aproveitando o bom tempo e os frutos da terra. Foi então que Pompeu, o comandante, proferiu a frase lendária: navegar é preciso, viver não é preciso. Foi esse o mote que Blixen escolheu aos dezessete anos para si e sob o qual viajou para a África em 1914, no mesmo ano em que o poeta Fernando Pessoa, também tomou para si o espírito da “frase gloriosa” dos antigos navegadores e a transformou para ajustá-la a si, escrevendo “necessário é criar”, não o viver. Ao adotar a divisa, Blixen nota que não era muito original, porém apelava ao coração dos jovens onde havia “o anseio e a vontade de ousar” esperando pela “palavra mágica que os faria partir” (Dinesen:1979:5). A frase atraia os jovens, comenta, por ser um paradoxo, porque jovens gostam de pensar por paradoxos. A viagem importante de Pompeu e seus homens, explica Blixen, tinha como objetivo manter a vida em Roma levando os cereais e como, de qualquer modo, se não estivessem vivos não poderiam mais navegar e levar os suprimentos, a frase é paradoxal, surge como a verdadeira e clara lógica da vida. Blixen singra o grande oceano, vai pelas águas dos impérios modernos, das colonizações europeias, porém segue em outro tipo de expansão, a de si própria e seus horizontes, navegando rumo ao desconhecido, e as incertezas da sorte. Para ela lugares e não lugares, como pontos de vistas, sempre se cruzavam buscando a nova vida, e, especialmente, a criação de si mesma. Toma do antigo comandante a direção e determinação, as artes e técnicas de navegar e segue em frente: “Nenhuma bússola para mim era tão infalível como o braço estendido de Pompeu [ao pronunciar a frase]; tracei meu curso por ele com firme confiança, e se alguma pessoa sábia insistisse que o mote não tinha um sentido terreno, eu poderia ter respondido, ‘Não, mas tem um sentido celestial!’ e talvez tivesse acrescentasse: ‘E um marítimo!’” (Dinesen,1979:6). E ela convoca os elementos, o ar dos céus, a terra para plantar, o fogo da paixão da aventura e a água oceano como caminho para guia-la. Tendo assinalado seus marcos, glosa o comandante romano “é preciso plantar, viver não é preciso” – isto é apropria-se também da palavra de comando masculina, talvez inspirada pela Leoa Alada, Lilith, espírito do vento e da desobediência à lei patriarcal. A viagem até Aden, a primeira escala, durou dezenove dias. Foi ali que conheceu seu criado somali: “Farah veio encontrar-me em Aden em 1913 [...] Durante dezoito anos, dirigiu minha casa, minhas estrebarias e meus safaris. Eu conversava com ele sobre minhas preocupações e meus sucessos [...] quando tive de deixar a África, Farah despediu-se de mim em Mombaça” (Dinesen,1993:7), e durante os últimos meses, quando tudo já fora vendido, “sempre que um visitante chegava à fazenda, Farah postava-se à frente da casa, mantendo a porta aberta para os ambientes vazios como se fosse o porteiro de um palácio imperial. Nenhum amigo, irmão ou amante, nenhum nababo que repentinamente me presenteasse com a quantia necessária para manter a fazenda teria feito tanto por mim quanto meu criado Farah fez então. Mesmo se eu não tivesse mais nada por que lhe ser grata – porém isto eu tenho, e mais do que posso registrar aqui – por causa daqueles meses, estaria ainda hoje, trinta anos depois, e estarei enquanto viver, em dívida para com ele” (Dinesen1993:35). Farah era capataz de Bror Blixen e ele o enviou para ajudar a noiva com a bagagem. Ele pertencia tribo Habr Yunis, criadores de gado e comerciantes; magro, bonito, cortês, exibia certo desprezo típico de sua tribo. “Era o vizir da casa e da fazenda [...] administrava o dinheiro, pagava contas e ordenados [...] com grande autoridade” (Thurman:s/d:136). Mais tarde abriu seu armazém e teve sucesso. Os Blixen competiram por sua lealdade desde o primeiro dia e Karen chamava sua relação com ele de ‘unidade criativa’ enquanto os colonos ingleses achavam essa relação muito suspeita. O casamento aconteceu no dia seguinte à chegada de Karen em Mombaça, e a noiva escreveu para a mãe que usara um costume de xantungue, a blusa que comprara com ela em Nápoles antes de embarcar, e um chapéu. O príncipe Guilherme da Suécia foi padrinho de Bror, a cerimônia foi rápida. À tarde tomaram o trem para Nairóbi, jantaram enquanto o comboio percorria aldeias e vilarejos; a seguir atravessou as quentes terras baixas e começou a subir até o planalto nas terras altas. Um cenário muito belo, “Tive uma fazenda na África, aos pés das montanhas Ngong” O equador cruza estes altiplanos, cento e sessenta quilômetros ao norte, e a fazenda situava-se a uma altitude superior a dois mil metros. Durante o dia sentia-se a altitude e a proximidade do sol, mas as madrugadas e as tardes eram límpidas e tranquilas, e as noites frias. A situação geográfica e a altitude combinavam-se para criar uma paisagem que não tinha igual no mundo. Não havia ali nada que fosse supérfluo ou luxuriante [...] O aspecto principal da paisagem, e da vida que nela se vivia, era o ar [...] Lá naquelas altitudes, respirava-se com facilidade, inalando segurança vital e leveza de coração. Nos altiplanos, acordava-se de manhã e pensava-se: ‘Aqui estou, onde deveria estar’” (Dinesen,1979b:3-4). “Aqui estou onde deveria estar”. Era a Vita Nuova, uma vida com a qual sempre sonhara. Considerou o ar como o aspecto mais marcante da paisagem e da vida ali, o céu azul e vibrante onde meio ao dia, o ar se corporificava e podia ser visto, ondulando brilhante, espelhando objetos e criando miragens. Ali “se respirava com facilidade, inalando segurança vital e leveza de coração”. A vida nova foi uma vida ampliada, acrescentou cenários diversos dos que havia até então frequentara, mundos povoados de outras etnias, outros animais e outras plantas em relações, tempos e movimentos diversos. Nessa vida nova Blixen se mostraria destemida e corajosa. A casa da fazenda, atual Museu Karen Blixen no Quenia.
Je Responderay “Recebíamos muitos visitantes na fazenda [...] um visitante é um amigo [...] Quando Denys Finch-Hatton retornava de uma de suas longas expedições, mostrava-se faminto para conversar, e me encontrava na fazenda, também faminta para conversar” (Dinesen,1979b:135). É assim que somos apresentados a seu amigo, em A fazenda africana, com uma discrição e falta de explicações notáveis, de maneira que, como assinala Thurman, se fosse apenas pelo livro não teríamos muita certeza da importância dele em sua vida. Hansen, por seu lado, pensa que a extrema discrição de Blixen quando escreve sobre Denys demonstra o quanto ele lhe era caro, opinião com a qual tendo a concordar. Nas cartas à família ela discorre bem mais sobre essa sua relação. Foi em 1923 que Denys resolveu fazer da fazenda seu pied-à-terre, ele ficava feliz na fazenda, aparecia quando queria. A família inglesa Frinc-Hatton, tinha uma divisa em seu brasão, “je reponderay, “eu responderei”. Blixen conta que gostou tanto desse antigo mote que pediu a Denys “um pioneiro na África anterior a mim – embora todos nós colonizadores chegados antes da Guerra nos víssemos como uma família, um tipo de gente do Mayflower” – para usá-lo como seu. “Ele generosamente presenteou-o e até mandou fazer para mim um selo com as palavras gravadas” (Dinesen,1979:7). A escolha desse mote deveu-se a inúmeros motivos e entre eles Blixen destaca dois. O primeiro é o alto valor atribuído à resposta, que pensa ser algo bem mais raro do que comumente se acredita, mesmo entre pessoas que falam sem parar. Em geral o que se dá numa conversação é um duplo monólogo, sem maior eco do que teria um bloco de madeira. “Nos extensos vales das planícies africanas eu estive cercada e fui seguida por doces ecos, como se de um tabuleiro sonoro. Minha vida cotidiana ali era cheia de vozes que respondiam; nunca falei sem obter uma resposta; eu falava livre e sem impedimentos, mesmo quando estava em silêncio. Uma explicação, acredito, é que vivia lá no alto [...] outra é que ali estava em contato com os nativos africanos e com os grandes animais de caça [...] Estou certa que, ao menos para a mulher, a presença de ecos em sua vida é uma condição para a felicidade, ou é nela própria a consciência de riqueza de recursos”. Em segundo lugar, gostei da divisa de Finch-Hatton pelo seu conteúdo ético. Irei responder pelo que disser ou fizer; responderei pela impressão que deixar. Eu serei responsável [...] Je responderay é um dito feliz sob o qual viver” (Dinesen,1979:7-9). A vida na fazenda, naquela paisagem de beleza inigualável emoldurada pelas montanhas Ngong , foi sempre difícil. As montanhas estendendo-se de norte a sul são coroadas de quatro picos que parecem tocar o céu. “A oeste, as montanhas caem verticalmente, precipitam-se abruptamente até o Vale: o grande Vale do Rift ” (Dinesen,1979b:3-4). Plantavam café na fazenda, embora a altitude não fosse adequada; a manutenção não era fácil e “nunca chegamos a ficar ricos”, escreveu em Out of Africa, livro que publicou muitos anos depois de ter deixado o local. A plantação cobria parte de uma extensa propriedade; havia campos de pastagem e florestas; cerca de quinhentos hectares eram destinados aos colonos, nativos que ocupavam o terreno, plantavam para si e tinham obrigação de trabalhar certo número de dias na fazenda, “Meus próprios colonos, possivelmente encaravam o relacionamento de outro modo, pois muitos haviam nascido na fazenda assim como seus pais antes deles” (Dinesen,idem). Ás vezes a vida na fazenda era solitária, mas ela sentia a silenciosa existência dos nativos correndo paralela à sua, num plano diferente, “Ecos transitavam de um plano ao outro” (Dinesen.1979b:18). Os nativos na fazenda não pertenciam todos a mesma etnia. Em sua maioria eram kikuyus que falavam banto e cultivavam nas terras altas. Os somalis eram muçulmanos devotos e olhavam de cima para os de tribos negras. Pertenciam à tribo de guerreiros criadores de gado, eram orgulhosos e haviam migrado da Somália instalando-se nas terras quentes do nordeste. Vizinha da fazenda ficava a terra dos Masai, grupo sudanês que viera do norte para o Quênia à procura de pastagens para o gado e saqueando aldeias por onde passavam. Blixen os admirava, como vários dos primeiros colonos sobre os quais exerciam uma espécie de atração. Mais distante da fazenda várias outras tribos se espalhavam pela região cada qual com características diferentes (Thurman,s/d:143). Viviam em paz entre eles. Os colonos europeus em geral pensavam que os africanos estavam saindo da idade da pedra, que eram ‘crianças’, que deveriam ser ‘gratos por serem civilizados’. Blixen em carta de abril de 1914, para tia Bess, comenta: “Os nativos (entre os quais os somalis não podem ser incluídos porque são imigrantes da Somália, mulçumanos do ramo árabe que olham de cima para baixo os Negros) são meu maior interesse aqui, mas penso que eu – e Bror – somos talvez as únicas pessoas que temos esse interesse. No que diz respeito aos nativos os ingleses são incrivelmente intolerantes; nunca lhes ocorre olhá-los como seres humanos e quando converso com as senhoras inglesas sobre isso“ [...] elas riem com ar de superioridade, afetadas por minha excentricidade. Sem dúvida os nativos que de muitas maneiras são mais inteligentes do que elas, se aproveitam disso, mas nunca haverá nenhum entendimento ou cooperação entre eles” (Dinesen,1981:4) Blixen comenta nessa mesma carta que ao observar os vários grupos ela sente que a superioridade dos brancos é uma grande ilusão porque embora eles possam manejar melhor as máquinas, quando se trata de caráter e de maneira de viver os nativos os superam. Eles possuem dignidade, além de bom gosto e belas maneiras. Thurman porém pensa que ela mantinha com os nativos relações paternalistas e difíceis, que o conhecimento que tinha deles e sua história era precário e que o ponto de vista dela era romântico e irreal. Blixen poderia rebater essa colocação de Thurman com as mesmas palavras que certa feita empregou para responder os que a acusavam de não ter interesse pelos problemas comuns das pessoas: “[...]é falta de compreensão quando sou vezes sem conta acusada de escapismo, de não estar preparada para me ‘envolver ou de ter vivido e continuar, em uma torre de marfimAntes de escrever meu primeiro livro, dei dezessete anos de minha vida...para uma batalha que ainda está ocorrendo, que talvez não possa ser chamada social, mas é prática, de um tipo universalmente humano, pelos Nativos da África. Ela em geral exigiu tarefas imensas e resultava muitas vezes em trabalho pesado e conseqüências onerosas” (apud Hansen,2003:133). Blixen se entendia bem com os nativos, era respeitada pelo chefe Knanjui que governava um milhão de kikuyus e lhe prometeu que ela sempre teria trabalhadores, o que era algo de inestimável valor. Blixen, porém, percebia que a boa convivência entre os grupos nativos estava chegando ao fim porque perdiam cada vez mais espaço e eram proibidos de realizar muitas das atividades ancestrais. Outro aspecto que considerava nocivo era a influência de missionários o que se comprovava com o fato dos colonos não quererem aceitar trabalhadores que tivessem freqüentado escolas missionárias; “todos dizem que mentem e até roubam” (Dinensen,1981:9). “A afinidade de Karen Blixen com os africanos foi imediata e sensual” (Thulman,s/d:146). As feras e as aves de rapina, escreveu em carta ao irmão, lhe pareciam os frutos mais lindos da terra. Ter a vida afetada por elas, escutá-las, ter o rebanho devorado, avistá-las em liberdade era para Blixen um alento. “As zebras são doces, mas claro, elas se parecem com cavalos; os gnus parecem perigosos, mas não o são; uma visão magnífica é a de um grupo de girafas e a primeira vez que as vemos, mal podemos crer em nossos olhos quando notamos sua altura e esbelteza, como um bando de grandes serpentes no mais estranho movimento de balanceio” (Dinesen,1981:19). E havia manadas de elefantes que por terem sido caçados ferozmente pelos humanos com finalidade de lucro durante muitos anos, incluíam-nos em seu esquema de coisas com profunda desconfiança (Dinesen:1993:39). Há paixão no encontro de homens e elefantes, há determinação dos dois lados, mas da parte deles não há prazer na aventura, estão somente defendendo seu feudo familiar. Blixen gostava de caçar; caçar para ela era sempre um caso de amor, os caçadores amam os animais, embora essa paixão seja sempre unilateral! Gostou de caçar leões, “[...]uma questão de perfeita harmonia, de profundo, ardente, mútuo desejo e reverência entre duas honestas e destemidas criaturas que partilham a mesma sintonia” Acredito ser capaz de me lembrar de cada leão que encontrei – seu aparecimento, sua cabeça levantando-se devagar ou virando-se rápida, o estranho e serpenteante oscilar de sua cauda” (Dinesen 1993:40). Logo que chegou Blixen caçava sempre, mas com os anos foi abandonando a caça que lhe pareceu sem sentido, pois eram vidas que pertenciam à paisagem. “Na terra selvagem, aprendi a não fazer movimentos abruptos. As criaturas com as quais se lida ali são tímidas e esquivas, possuem um talento especial para evadir-se quando menos se espera. Nenhum animal doméstico consegue manter-se tão imóvel como um selvagem. As pessoas civilizadas perderam a aptidão para a quietude e precisam receber aulas de silêncio das criaturas bravias antes de serem aceitas por elas” (Dinesen,1979b:14). O primeiro projeto da Blixen foi reformar a casa, o que levou um ano e foi realizado enquanto o cafezal crescia. Bror desempenhava o papel de grande cafeicultor. Cavalgava pela fazendo com chapéu e botas supervisionando os trabalhos. Logo todos os tipos espertalhões do Quênia reconheceram nele uma pessoa ingênua e lhe propuseram todo tipo de negócio com os quais ele em geral concordava. No primeiro ano de sua estadia Karen Blixen foi acometida por um ataque grave de malária que a manteve na cama por semanas enquanto o marido ficava fora, na cidade, a maior parte do tempo. Gradativamente ela assumia inúmeras tarefas mesmo antes de se tornar administradora única da fazenda. Blixen construiu uma escola para os nativos e recebeu críticas de todo o tipo, dos que eram contra a introdução da cultura ocidental na vida nativa, como seu amigo Denys, e dos que achavam que os nativos não eram gente, portanto não precisavam aprender.. Ela também se tornou a médica das pessoas da fazenda. Não estudara medicina, conhecia apenas os primeiros socorros, mas ganhou fama e sua fama se espalhou. Atendia pela manhã, uns dois ou três até, às vezes, dúzias de pacientes. Eram velhos, mulheres, jovens ou crianças que ficavam no terraço da casa onde a atmosfera era alegre, até que ela entrava e o silêncio se fazia esperando que escolhesse o primeiro paciente. Os nativos, lembra, enfrentam qualquer mudança na vida com calma, mas entre as qualidades que esperavam de um médico estava a imaginação e Blixen considerou ter sido esse aspecto o que a tornou aceita e conhecida. E aconteceu um dia de Kamante, um pequeno garoto kikuyu com quem já cruzara nas pastagens se apresentar em sua varanda, em busca de ajuda. Ele conta, “Depois da morte de meu pai, eu mesmo tive uma doença muito séria, uma ferida fatal na perna” (Gatura,1990:cap2). Blixen não conseguiu curar a ferida e então levou Kamante para o Hospital da Missão Escocesa, que considerava excelente. Ali ele permaneceu três meses em tratamento antes de retornar à fazenda. Era muito dado à reflexão, sempre uma figura solitária, mesmo quando estava meio a muita gente. Era hábil em termos de dinheiro e fazia bons negócios. Hábil mesmo se mostrou na cozinha. “Eu, Kamante Gatura, fui cozinheiro em sua casa. Durante aquela vida com Mrs Karen eu dirigia até Nairobi [...] e competia com os melhores cozinheiros, ia ao Norfolk Hotel, o Stanley [e outros]” (Gatura:1990:cap1). Kamante aprendeu a cozinhar a partir das receitas que Blixen lia para ele em seu Livro de Bolos do Sultão e, segundo ela, o rapaz possuía todos os atributos do gênio culinário. Adquiriu renome “pois seu comportamento diante de sua arte era o de um mestre” (Dinesen,1979b:31). E foi Kamante quem criou Lulu, a gazela que apareceu um dia por ali, dava-lhe mamadeira e colocavam-na para dormir dentro de casa. Ela grudava nele e seguia-o por onde fosse. Lulu não era gentil, saiu do controle, atacava cavalos ou o que a desagradasse. “Lulu era o orgulho da casa até mesmo quando se comportava como uma verdadeira e desavergonhada coquete, mas nós não a fazíamos feliz” (Dinesen,1979b:61). Porém, para todos ali, especialmente para Blixen, os anos em que Lulu viveu em sua casa foram os mais felizes de sua estadia africana. Os colonos europeus, por seu lado, demonstravam antipatia por Tania Bixen, desconfiavam da mulher inteligente, uma estrangeira com sotaque estranho que tinha ideias peculiares sobre os nativos, ideias das quais discordavam radicalmente. Durante a primeira guerra desconfiavam que fosse uma espiã alemã, o que era absurdo e muito a magoou. “A resposta de Tanne à sua alienação da sociedade dos colonos foi então – e seria no futuro – o enraizamento de sua vida entre os africanos” (Thurman,s/d:149). Estava sempre cercada de nativos, a equipe oficial da casa mais agregados, parentes em visitas, garotos que ajudavam em várias tarefas, filhos dos que tinham fazendas por ali ou dos que recebiam salários. Kamante Gatura conta que os nativos retribuíam seu afeto, até estranhos buscavam seus conselhos. As velhas lhe deram um nome honorífico que podia significar, entre outras coisas, “aquela que presta atenção” (Thulman,s/d:149).
Quando se sentia bem saia em sua égua Aimable em galopes pelos caminhos solitários que conduziam á reserva Masai, do outro lado do rio, a oeste da fazenda. Ela e Farah faziam com eles um lucrativo negócio de ovelhas, ela gostava de comerciar. E apreciava os Masai por sua sinceridade em seu porte orgulhoso. E logo que se recuperou da malária escreveu para tia Bess: “a vida é mais brutal” na África do que na Dinamarca, “provavelmente a perturbaria mais do que as piores situações da vida em casa; quanto a mim, prefiro a vida aqui” (Thulman, s/d:150). No primeiro ano de sua estadia na África Blixen foi atingida por sérios sinais de enfermidade que se provaram ser de uma sífilis adquirida do marido, Bror Blixen. Em um relatório o médico dinamarquês que a tratou menciona que nunca houve o mínimo sinal que tivesse sífilis no cérebro, ela sofria de uma infecção limitada, mas muito dolorosa, na coluna vertebral. Ela mesma reconheceu os sinais, consultou um médico em Nairóbi em 1914, foi tratada com tabletes de mercúrio e estes, devido a grande quantidade ingerida, lhe causariam problemas posteriormente: dor que interferia em seu dia a dia, uma dor tão intensa que “eu parecia estar em um mundo diferente, ou no mundo subterrâneo” e até mesmo a escrita então se tornava um trabalho sobre-humano (Hansen, 2003:132). O primeiro tratamento em Nairóbi não tendo surtido efeito, ela embarcou para casa, na Dinamarca, escrevendo para a mãe que fora acometida por uma febre persistente. Consultou-se com um especialista e passou três meses internada em um hospital para que ninguém percebesse qual era sua enfermidade; depois continuou com assistência ambulatorial. Vários testes provam que a doença fora interrompida no estágio dois e que ela não estava mais contagiosa. Nesse seu retorno a Dinamarca ficou com a mãe em Rungtedlund por aproximadamente um ano. No verão de 1916 Bror foi visitá-la e em novembro os dois voltaram juntos para a fazenda cheios de planos para a implementação da plantação e dos rebanhos. Na fazenda estava cercada de animais que sempre amara, vê-los em seu habitat natural deixava-a maravilhada. Os africanos, no entanto, ela não conhecia antes de chegar, mas “[...]eles entraram em minha vida como um tipo de resposta a algum chamado de minha própria natureza, talvez dos sonhos de infância, ou da poesia lida e acarinhada há muito tempo, ou de emoções e instintos profundos de minha mente, pois sempre senti que me parecia mais com os nativos do que com outras pessoas brancas do Protetorado. Desde o primeiro dia uma compreensão surgiu entre mim e eles, e posso dizer que meu amor por eles, de ambos os sexos e de todas as idades e todas as tribos – acima de tudo pelos Masai [...] foi a paixão mais forte que jamais conheci” (idem:8).
Pourquoi pas? Quando voltou para a África em 1920, seu irmão Thomas acompanhou-a como representante dos interesses da família no empreendimento; ele deveria ajudar a colocar em ordem as finanças da fazenda. No ano seguinte, tio Aage Westenholz, presidente da Karen Coffe Co., visitou o Quênia para decidir o futuro do negócio. Sua inspeção resulta na destituição de Bror Blixen como administrador e na nomeação de Karen Blixen para substituí-lo. Blixen culpa a si mesma, em grande parte, pela situação difícil que então vivia. Aceitara a ajuda da família, da fortuna dos Westenholz, para financiar a aventura africana, o que passou a considerar um grande erro que a fazia sofrer continuamente. Não fosse essa situação, não teria de se preocupar se chovesse ou fizesse sol, ou nas condições da terra, ou no tamanho das colheitas. Estava certa que sem a pressão dos acionistas seria capaz de se arranjar de um ou outro modo. O ano de 1923 foi de muita ansiedade para Blixen com a possibilidade de ter alienada a fazenda, tendo de responder aos telegramas dos acionistas da empresa mantenedora que indagavam sobre a situação. Faltava capital de giro para sustentar o período de espera do crescimento do cafezal. E também estava muito solitária, então escrevia. Aconteceu certo dia ler em um jornal noticiário sobre o naufrágio de um navio da expedição científica francesa que afundou com sua bandeirola balançando ao vento com o dístico Porqoui pas? – Por que não? Blixen se encantou. E adotou a expressão como seu terceiro mote. Este também poderia ser tomado como negativo em si mesmo, explica, a voz de uma causa perdida. "Mas, quando se acrescentada outra negativa, o pas, - o “não” - à pergunta patética, ela se torna uma resposta, uma diretiva, um chamado por desejos impetuosos” (Dinesen,1979:12). Sob esse signo terminou seu primeiro livro – Seven Gothic Tales - e todos os outros que se seguiram. Ingebor Dinesen, a mãe de Karen, visitou a fazenda duas vezes, em 1927 ficou três meses. No ano seguinte Bror, de quem se divorciara, se casou novamente, e ela ficou sozinha na fazenda, em companhia somente do amigo Denys. “Os dois amigos vestiam-se a rigor para o jantar, mesmo quando estavam sozinhos. Denys tinha um paletó favorito de veludo e Tanne gostava de um vestido de tafetá que deixava à mostra ombros espantosamente brancos’. Farah servia o café na sala de estar, cujas paredes estavam cobertas pelos livros raros de Denys “ Era uma sala sensual, repleta de pequenos molhos de rosas e lírios de longas hastes mergulhados na água. Uma pele de leopardo cobria parte do assoalho...” (Turman, s/d:211). Em 1929, Karen Blixen não tinha mais esperança de salvar a fazenda e sua vida africana. Após anos de crise financeira a propriedade foi vendida em 1931. O comprador que pretendia lotear e construir casas no terreno, declarou que o fracasso de Karen Blixen na empreitada se devia à sua “obstinada devoção aos africanos”; no entanto, ninguém obteve sucesso com o café naquelas terras altas, pois a acidez do solo aumentava com a altitude. Assim mesmo o comprador acreditava que se ela tivesse convertido a fazenda em plantações em escala comercial, com produtos diversificados, poderia ter sido bem sucedida. Mas para obter lucro teria de tirar os africanos de suas terras e ela não quis fazer isso (Thurmna, s/d:203). Nesse mesmo ano seu amigo Denys Finch Hatton, pilotando seu pequeno avião sofreu um acidente fatal próximo aquela região. Denys foi sepultado nas colinas de Ngong, perto do lugar em que ele e Karen haviam escolhido para colocar seus túmulos. Depois que deixou a África, Blixen recebeu carta de um amigo relatando estranho incidente: Os masai relataram ao Comissário Distrital de Ngongm que, muitas vezes, ao amanhecer e anoitecer viam leões na sepultura de Finch-Hatton nas montanhas. Um leão e uma leoa haviam aparecido ali, ficavam em pé, ou deitados sobre a sepultura durante longo tempo Era adequado e muito decoroso que os leões se achegassem à sepultura de Denys, proporcionando-lhe um monumento africano vivo [...] Os próprios leões de Lord Nelson, em Trafalgar Square, são feitos apenas de pedra” (Dinesen,1979b:312). Então ficou mesmo sozinha na fazenda e com Farah vendeu todas as peças da casa; preocupou-se em alojar os seus animais e, mais ainda, com o destino dos colonos. " Depois de muita luta, de muitas idas e vindas para Nairobi “para parlamentar com as autoridades, fui subitamente informada que minha solicitação havia sido deferida. O Governo havia concordado em dar um trecho da Reserva Florestal de Dagoretti aos colonos de minha fazenda” (Dinesen,1979b:326). Em meados de agosto Karen Blixen embarcou em Mombasa de volta para a Europa, saia da África para sempre. Aportou em Marselha, totalmente arruinada financeira, psicológica e espiritualmente. Longe dos ecos das planícies africanas, passou um longo período sem ouvir qualquer resposta, e então ficou em silêncio porque não tinha nada a dizer. Retornou a Rungstedlun, foi morar com a mãe na casa da infância da qual sempre quisera se afastar. A mãe e o irmão proveram seu sustento durante os três anos seguintes, ela não sabia o que queria fazer, duvidava que pudesse se adaptar ao estilo de vida deles, no entanto “eu precisei falar. Tinha meus livros para escrever” (Dinesen,1979:10). Blixen agora navegava os oceanos de palavras. “Com extraordinária força de vontade e autocontrole começa intencionalmente a escrever e completar uma coleção de histórias, para sobreviver como ser humano” (Lason,1981:xxxv).
“Be bold. Be bold. Be not to bold
“Seja audaz. Seja audaz. Não seja audacioso em demasia”, foi o próximo mote da vida da escritora, um mote que adotou sem que o Pourquoi pas? fosse expulso, “como se como uma lei da natureza, como a mudança de estações que ninguém quer alterar” (Dinesen,1979:12). Uma antiga cidade inglesa, conta, era cercada por três muralhas. “Acima da primeira porta estava escrito: Seja audaz; da segunda, Seja audaz; acima da terceira: Não seja audacioso em demasia” (Dinesen,idem). Blixen comenta ainda que o anseio de marcar o mundo com a própria vontade e torná-lo seu era o anseio de ser capaz de aceitar e se dar ao universo, “Eu fui muito forte, de modo não usual para uma mulher, capaz de andar ou cavalgar por mais tempo do que a maioria dos homens; eu entortei um arco masai e em um momento de devaneio senti afinidade com Ulisses. O prazer de ser forte ainda está comigo; a fragilidade de hoje é a continuação natural do vigor de dias passados” (Dinesen,1979:14). Sim, ela era forte, e não se enganem com sua aparência, pequena, magra; quando mais velha continuava forte, a despeito da aparência, das enfermidades, da depressão. É preciso ser forte, ser corajosa para depois de ter ficado arruinada literal e psiquicamente, aos 46 anos, voltar para a casa da qual sempre quisera escapar e começar ainda uma outra vida. Tornou-se escritora, talentosa contadora de histórias. Passou a navegar o oceano de palavras com a mesma determinação que a levara pelos mares para sua fazenda africana. Depois de um ano trabalhando no livro que trouxera esboçado da África, empreendeu a busca por um editor, o que não foi fácil. De uma coisa os editores ou os amigos não conseguiram fazer com que desistisse: do pseudônimo: “Ao escolher Dinesen para seu non de plume Karen Blixen denota suas raízes no universo aristocrático do pai; Isak deriva da história bíblica de Sarah, que já bem idosa fica sabendo que vai ter um filho, dá uma já gargalhada e o nomeia Isak [...] que significa ‘aquele que ri’. Ao escolher esse nome em particular, Karen Blixen indica a origem de seus contos no mito, e enfatiza o significado do ‘riso’, que em seus contos é indicativo de reconhecimento liberador. Um amigo indaga, sem que tenhamos a resposta dada por ela, se Isak não seria kasi de trás para a frente, uma palavra que significa “energia” em Swahili”. (Hansen, 2003:13). Afinal, em fevereiro de 1934, Blixen recebeu um telegrama informando-lhe que seu livro, mesmo antes de ser publicado, fora escolhido para livros do mês nos Estados Unidos o que significava uma edição muito maior do que a que haviam planejado anteriormente. Em abril o livro apareceu e foi entusiasticamente recebido por críticos e leitores. Em setembro foi publicado na Inglaterra onde também fez grande sucesso. Um ano mais tarde, publicado na Dinamarca em tradução da própria autora, não foi tão bem recebido. Seven Gothic Tales [Sete Novelas Fantásticas] inclui a palavra gótico no título original como referência ao poeta lord Byron e aos contos ingleses, não aos românticos alemães. A presença do elemento fantástico visa tornar mais compreensiva a representação da realidade, uma vez que a autora considerava a imaginação livre um agente importante desse objetivo. Na história, “O dilúvio em Norderney”, o Cardeal aconselha um artista a não temer o absurdo nem fugir do fantástico; quando estiver em um dilema escolher a solução mais incomum, mais perigosa (Dinesen,1979c) . Essa sugestão não é restrita ao artista dessa história, mas serve às personagens e às pessoas conhecedoras da arte de viver, lembra Hansen. Nesse primeiro livro ela emprega uma técnica narrativa que lhe é muito cara, faz as personagens contarem as histórias de outras personagens o que torna a narrativa complexa, pois uma história é ligada às outras. A multiplicidade é acentuada ainda pela idéia subjacente de nenhuma história ser completa, pois, Blixen entendia que a literatura universal é um conjunto de histórias sem fim, que são também a repetição de uma historia imortal para sempre relevante (Hansen, 2003:15). É na escolha das situações da passagem de uma personagem a outra que se estabelece a ‘atmosfera fantástica’. Blixen parece ter intuído, desde sempre, como demonstra a variedade de nomes que usou desde muito jovem para assinar seus trabalhos, o que tornou explícito no conto “Os Sonhadores”, de seu primeiro livro, a saber, que a armadilha mais perigosa na vida é a própria identidade: “O tempo é chegado de eu ser uma mulher com um nome qualquer [...] E se [disse Pellegrina Leoni] eu começar a me preocupar demais com o que está acontecendo com esta mulher, simplesmente me afastarei e me t ransformarei em outra [...] São muitas as mulheres em que me posso tornar [...] Nunca mais serei uma única pessoa [...] serei sempre mais de uma pessoa [...] E você [...] seja muitos” para não se tornar escravo e prisioneiro de uma identidade fixa (Dinesen,1979c :323). O deslizamento contínuo através de eus é imprescindível à liberdade dos seres, por isso, “[...]a armadilha [em seu caso] não era escrever, ou ser escritora profissional, mas tomar a si muito seriamente e identificar a mulher com a autora que tem sua identidade confirmada, de modo inescapável, em público” (Arendt,1979:x). A identidade é conseguida através da vivência dos múltiplos aspectos peculiares a uma pessoa, inclusive da atualização do animal em si. A falta de caráter é, para a escritora, o oposto, a fixação em um só ponto de vista ou na simples imitação dos demais. A tragédia ocorre quando qualidades de caráter necessárias à resistência ou ao desafio estão ausentes; então os elementos rígidos do meio ambiente podem imobilizar o ser. Blixen empregou várias designações para si mesma e muitas máscaras para suas personagens que coloca em situações extremas que forçam a questão central da identidade e seus limites. ‘Quem sou eu?’ indagam, e a resposta é sempre que não existe uma identidade fixa. As personagens ao constatar flexibilidade e fluidez ficam aliviadas, pois até então se sentiam aprisionadas na noção artificial de um ‘Eu’ imutável.
“This too will pass” Contos pensava Blixen, desmancham repressões, trazem à luz segredos profundos, como comenta em “O mergulhador”, primeiro conto da escritora que li há décadas e me encantou para sempre: “Se você seguir a carreira de uma única pérola ela poderá lhe dar matéria para centenas de contos. As pérolas são como os contos dos poetas: enfermidades transformadas em beleza, ao mesmo tempo transparentes e opacas, segredos das profundezas trazidos à luz para agradar jovens mulheres, que nelas reconhecerão os segredos mais profundos de seus corações” (Dinesen,1986:12). Note-se o interessante movimento do pensamento de Blixen, a personalidade se forma através da vivência de múltiplas facetas do ser, em diálogos e conversas umas com as outras, nunca se esquecendo de incorporar o aspecto animal de cada um de nós. O ser surge da multiplicidade de vivências ao passo que o movimento oposto também é pertinente: a pérola, ou uma outra coisa, contém em si a multiplicidade, matéria para centenas de contos que formarão uma complexidade narrativa que o poeta singular faz dialogar entre si. Matérias sempre que transformam a escuridão em beleza, transparente e opaca, trazendo à tona segredos dos corações de jovens mulheres que reconhecem suas múltiplas possibilidades de vida. Transparentes e opacas podem também ser qualidades da obra arte, uma vez que correspondem ás forças divina e demoníaca, às forças primordiais que estão tanto no mundo quanto nas pessoas. A vida se constrói sobre essas forças, assim também a arte deve fazê-lo. O demoníaco é o sofrimento inevitável que a obra de arte deve recriar, pois o conto não existe sem seu lado escuro. Essa união das duas forças, a alternância entre elas é para Blixen uma manifestação do que entende por arte aristocrática. O requisito para criar essa arte é o afastamento do artista da esfera privada para atingir o impessoal e poder assim expressar o cósmico através de sua pessoa. As historias imortais preenchem uma necessidade perene da raça humana por contos e narrativas e, sem elas, os humanos pereceriam. Essas colocações ressoam nas filosofias contemporâneas, como em Braidotti que mostra que o processo de criação de um estilo próprio, a autopoiesis, envolve negociações complexas e contínuas com normas e valores de uma época, no caso a escritora acrescenta também com as forças naturais, e, portanto, há múltiplas formas de responsabilidade (Braidotti,2006); “je reponderay”, escolhera Blixen como um mote de referência. Out of Africa, A fazenda africana, o segundo livro que publicou, é uma memoir, uma saga, uma elegia ou poema lírico à África. A memoir é uma narrativa não ficcional, não documental, de episódios selecionados da vida de alguém a partir dos quais é escrita uma história. Ao contrário da autobiografia, não se propõe a contar a vida inteira de alguém, ou a resumi-la, não busca ser um documentário, nem uma verdade absoluta sobre uma vida. É um gênero antigo e conhecido, existiu desde a Antiguidade até o mundo contemporâneo, de Julio César até Gore Vidal que define memoir como o relato do que alguém se lembra da própria vida e que exige procura de fontes, documentos e tais. Assim, A fazenda africana não é, como em geral se pensa, uma biografia da autora, nem pretende sê-lo. A personagem principal do livro, segundo Dinesen, é a África. A visão geral que ela pensava ser o mais importante a ser alcançado na vida e na arte é o ponto de vista do livro que em vários momentos emprega palavras das contadoras de histórias, atitudes para com o mundo como galanteria e alegria. O livro, porém, não é o retrato de um paraíso, ou de um mundo imóvel como era o dos etnólogos de então. A frase inicial, “eu tive uma fazenda na África”, indica desde o início ser uma história sobre perdas, perda da fazenda, perda do mundo que existia quando lá chegou e que durante os anos que viveu na África ficou foi desaparecendo em contato com os colonizadores; perda para os nativos de suas terras e proibições de ritos culturais, perdas pessoais e perdas coletivas. O livro foi lançado na América do Norte, também pelo clube do livro, em 1937 e consolidou a fama da escritora com uma escrita envolta em problemas da existência que retoma de outra perspectiva vinte e cinco anos depois em Sombras na relva (1961). Os dois primeiros livros foram escritos em inglês, porque pensava ser uma língua mais fácil de ser compreendida, e de ser vendida talvez; porque era uma língua que falava muito bem e à qual se acostumara no cotidiano africano, era sua língua da África. Porque, como quer Yaeger, empregar outra língua facilita a liberação da educação básica e, porque, lembrando o lema llansoliano: “uma só língua tem falta de palavras” (Llansol,out 2013). Dois anos depois desta publicação Ingeborg Dinesen morreu aos 82 anos. Karen Blixen se tornou senhora de Rungestedlund e ficou independente financeiramente. “Aos 54 anos, Tanne Blixen sentiu a morte da mãe como teria sentido aos dezenove – com toda a força da ambivalência [...], a ambivalência de uma jovem rebelde que é também uma filha amorosa, assustada e profundamente apegada” (Thurman,s/d :314). No ano seguinte, quando a Polônia já havia sido invadida pelo Terceiro Reich e Inglaterra e França haviam declarado guerra à Alemanha, Blixen conseguiu uma encomenda de um diário dinamarquês para fazer reportagens sobre as três principais capitais européias. A primeira viagem foi para Berlim onde fiou um mês e para onde seguiu com uma carta de recomendação para Göering. Foi recebida como grande personalidade e levada a inúmeros locais, logo percebendo que a hospitalidade dirigia seus passos, não permitindo que visse as coisas naturalmente. Foi convidada para jantares e festas, recusou os convites, só aceitou o do Führer, mas quando lhe fizeram saber que ele gostaria de receber exemplares de seus livros autografados, desculpou-se pretextando um resfriado e não compareceu. Os artigos que escreveu na volta criticam o nacional socialismo, embora Thurman pense que o ponto de vista distanciado, cauteloso que emprega, não fizesse jus às circunstâncias; mas então a crítica está falando no pós-guerra, depois das atrocidades cometidas durante o conflito terem vindo à tona. Blixen voltou à Copenhagen e deveria seguir para Londres e Paris, mas a Dinamarca que até então permanecera neutra, foi invadida por Hitler em abril de 1940, e ela ficou “repentinamente isolada [...] da humanidade inteira” (Dinesen, 1993:85). Seus artigos só foram publicados depois do final da guerra. “Os dois anos seguintes foram marcados por nada além do vazio [...] Um evangelho cultural impingido às pessoas, a condição e o nome de protetorado imposto a seu país. Um novo reconhecimento da importância de antigas tradições [...] Para não enlouquecer, recorri ao tratamento que, com o mesmo propósito, utilizara na África em tempos de seca: escrevi um livro. Aconselhei meus amigos a fazerem o mesmo, pois desviava a atenção dos soldados alemães em treinamento militar com máscaras de gás em volta de nossas casas...” (Dinisen,1993:85-86). A vida cotidiana durante a ocupação era simples, Blixen não estava pobre, mas destituída, pois os royalties dos livros não chegavam; morava sozinha sem se importar com isso. Os dois primeiros invernos da guerra foram excepcionalmente frios Ela fechou parte da casa, mudou-se para uma ala menor onde tinha um quarto de dormir em local mais quente. Em 1943 a presença alemã se fez sentir mais forte, também cresceram a imprensa e o movimento de resistência dinamarquês. Foi então que Hitler resolveu deportar os judeus dinamarqueses para campos de concentração; os líderes da resistência conseguiram organizar uma grande operação de resgate: avisar, esconder e transportar para a Suécia oito mil judeus. A disposição dos dinamarqueses para ajudar foi generalizada e apesar de duas traições, a maioria dos judeus, mais de sete mil, foram escondidos e chegaram à Escandinávia. Para Blixen o fato era acrescido de outra dimensão, da lembrança da luta de seu pai contra os alemães, uma luta que agora era sua (Thurman:s,qd:329-332). Karen Blixen entregou chaves da porta da cozinha a amigos da resistência, “havia judeus na cozinha e nazistas no jardim”, contou a amigos anos depois. Dormia vestida, vigiando da janela do sótão, convocando a escuridão para envolver as casas usadas como escalas na rota de fuga. Uma noite os alemães vieram inspecionar a sua casa, ela não os deixou entrar, manteve-os à porta “sob uma bateria de sarcasmos e rudes desafios...Foi um prazer e um desafogo insultá-los e, na verdade quase não havia perigo nisso” (apud Thurman,s/d:331). Tendo conseguido evacuar os judeus, os dinamarqueses tiveram de se haver com a ira e represália nazista. Depois da guerra Karen Blixen soube do sucesso de outro livro seu que conseguira fazer chegar à América e vendera muito bem. Começou a receber amigos com maior freqüência, estava sempre cercada de gente, de grupos de jovens, convidados que mimava com especialidades e iguarias, embora como sempre comesse frugalmente. Fez viagens pela Europa, apaixonou-se ainda uma vez e as relações familiares continuaram tensas por longo tempo. Sua saúde continuava precária. Aos setenta anos precisou ser operada de uma úlcera no estômago, um pedaço do órgão foi retirado e a partir de então se alimentava pouquíssimo, como se isso fosse possível, e de maneira peculiar, comia ostras acompanhadas de champanhe. Receita dos médicos? Não, dela própria que apreciava esse cardápio. Tanne Blixen sempre quis ser magra, desde moça. Quando ia para Copenhague sozinha para as classes de pintura, aproveitava e jogava fora o almoço pela janela do trem e a noite recusava o jantar alegando que comera muito no almoço (Thurman:s/d: 83). E, em uma carta para a irmã Ellen Dahal, em 1928, comenta que com o passar dos anos se entende e discerne os pequenos fenômenos da vida que permitem alguém ser si mesmo. “Sei que não devo engordar; para mim é preferível sentir as pontadas da fome porque estar acima do peso restringe meu estilo” (Dinesen,1981:381). E restrições a seu estilo era algo que ela não iria admitir. Suas roupas eram idéias, imagens as quais ela dava nomes. Os amigos pensavam ser ela uma excêntrica encantadora. Foi o que surpreendeu e marcou a menina Margareth Atwood quando aos 10 anos de idade viu na revista Life fotografias da Baronesa, especialmente uma na qual se reclinava em uma janela, de turbante, notável e emaciada. “Para meus olhos jovens a pessoa nas fotografias era como uma criatura mágica de contos de fada: uma mulher inacreditavelmente velha, de uns mil anos no mínimo” (Atwood, 2013). Maquiada impecavelmente poderia parecer carnavalesca, mas tinha uma expressão irônica, parecia que estava desfrutando o espetáculo que proporcionava. Nove anos depois, em 1959, Blixen visitou pela primeira vez a América foi para Nova Iorque, lugar que lhe dera fama e foi recebida como celebridade, na palavra empregada por Atwood, foi leonized, foi tratada como uma leoa, isto é, alguém de grande importância. Pediu para conhecer quatro pessoas: Hemingway, apreciador de sua obra mas ele não se encontrava no país; o poeta E.E.Cummings que foi seu acompanhante em um jantar oficial no qual foi a homenageada e discursou sobre os “Motes de minha vida”. E fez questão também de conhecer a escritora Carson McCullers e a atriz Marlyn Monroe o que se deu em um almoço que logo adquiriu contornos de lenda. Dinesen admirava muito as duas mulheres e como descobriu, McCullers era sua grande fã. E foi essa escritora norte americana quem organizou o almoço em uma gélida tarde de fevereiro, em sua casa Vitoriana de frente para o rio Hudson. Ostras, uvas, suflé e champanhe foram colocados sobre a mesa de mármore negro de McCullers. Dinesen contou sobre sua primeira caçada ao leão e todos apreciaram. Monroe, com seus incríveis olhos azuis, narrou suas peripécias na cozinha, todos riram muito. Arthur Miller que a acompanhava não contou nenhuma história. O relato passa a divergir em relação ao que fizeram depois do almoço. Carlson contou que dançaram, mas quer a lenda que as três mulheres famosas, tal três bacantes inebriadas pelo champanhe, dançaram em cima da mesa de mármore. Miller nega que qualquer uma delas tenha dançado e lembra que McCullers estava visivelmente enferma, há pouco sofrera um derrame, não poderia ter subido na mesa. Mas todos concordaram que o almoço foi um sucesso. Dias depois uma amiga indagou de Dinesen o que achara de Monroe e ela respondeu, “não é que ela não seja bonita, ela o é, e muito, mas é que irradia ao mesmo tempo uma vitalidade irrestrita e um tipo de inocência inacreditável” (Goldeberg,2010). As três mulheres não se encontraram de novo, Carson viveu mais oito anos, sempre enferma, teve vários outros derrames. Dinesen e Monroe morreram com meses de diferença em 1962. Antes de morrer, Karen Blixen estabeleceu um fundo - a ser continuamente abastecido com os royalties de seus livros - como fundação privada, com o objetivo de “preservar Rungstedlund como um santuário de pássaros sob a direção da Sociedade Ornitológica” A antiga casa se tornou assim área protegida, sem interferências a não ser as requeridas pela vida dos pássaros, especialmente os migratórios. A parte da casa que os ornitologistas não precisarem utilizar, indicou Dinesen, poderá se tornar um museu e uma biblioteca. “Desse modo a casa, fiel à tradição, unirá natureza e literatura” (Dinesen,1979:215). Referências Arendt, Hannah. 1979. “Foreword” in Daguerreotypes and Other Essays. Chicago, The University of Chicago Press,. Beard, Peter (org.) 990 . Kamantés Tales form Out of Africa. Edited by Jaqueline Bouvier Onassis. San Francisco: Chronicle Books. Dinesen, Isak. 1993 . Sombras na relva. Rio de Janeiro: editora 34, trad. M.Luiza Newland. ___________. 1981. Letters from Africa 1914-1931, ed. By Frans Lasson. Chicago : The University of Chicago Press ___________. 1979 Daguerreotypes and Other Essays. Chicago: The University of Chicago Press. ___________. 1979 b A Fazenda Africana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, trad. Per Johns. ___________. 1979c Sete novelas fantásticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, trad. Per Johns,. Hansen, Frantz L. 2003. The Aristrocratic Universe of Karen Blixen. Brighton: Sussex Academic Press, trad. Gaye Kynoch. Plutarco. s/d. Les vies. Paris: Garnier, vol. III Thurman, Judith. s/d. A vida de Isak Dinesen (Karen Blixen). São Paulo: Record, trad. Aulyde S. Rodrigues URL Atwood, Margareth. “On the show-stopping Isak Dinesen” in The Guardian, 29 November, 2013, consultado janeiro 2014. http://www.theguardian.com/books/2013/nov/29/margaret-atwood-isak-dinesen Bredal, B. “Blixen’s grandfather among the Berbers” in Politiken 16, 2010. www.karenblixen.com/BrendalAWDinesen.htm Goldberg, Eve. “Lunch with Carson” in The Rumpus, July, 15, 2010. http://therumpus.net/2010/07/lunch-with-carson/ consultado setembro, 2013. Llansol, M. Gabriela. www.espacollansol.blogspot.com/outubro2013 consultado janeiro 2014.
biografia Norma Telles, bacharel em História pela Usp, Mestre em Antropologia e Doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP onde foi professora entre 1978-2006. Pesquisa escritoras brasileiras do século XIX e artistas surrealistas do XX. É autora, entre outros, de Encantações, escritoras brasileiras e imaginação literária no Brasil, século XIX (2012); “Estrela na areia” (2012); “Gritos e sussurros: o livro de Margery Kempe”(2012); “A arte de escrever intensamente a história, a arte, os feminismos” (2013), “Paisagens de letras e palavras”(2013), “Emancipação pelas letras” (2013).
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